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Dívida alta e apostas arriscadas: entenda a crise da Raízen

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Dívida alta e apostas arriscadas: entenda a crise da Raízen

Fonte: G1 Negócios | Publicado em: 11/03/2026 08:57

Economia Negócios Expansão, dívida alta e resultados em queda: entenda a crise da Raízen Após anos de expansão com investimentos financiados por dívida, a Raízen enfrenta forte deterioração financeira. Empresa pede recuperação extrajudicial para reorganizar R$ 65,1 bilhões em obrigações. Por Janize Colaço, g1 — São Paulo

A Raízen informou nesta quarta-feira (11) que protocolou um pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar cerca de R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias (obrigações sem garantia real).

Segundo a empresa, credores que representam mais de 47% desse valor já aderiram ao plano de renegociação. Na avaliação da companhia, esse apoio inicial indica que há disposição de parte dos credores para discutir novas condições de pagamento.

A medida ocorre após um período de pressão sobre as contas da companhia, marcado pelo aumento do endividamento e por desafios operacionais.

🔎 A recuperação extrajudicial é um acordo no qual a empresa renegocia parte das dívidas diretamente com alguns credores, fora da Justiça. O objetivo é obter mais prazo ou melhores condições de pagamento para reorganizar as finanças e evitar problemas mais graves, como o risco de falência.

Nos últimos anos, a Raízen ampliou investimentos em projetos ligados à transição energética, mas parte dessas iniciativas demorou mais do que o esperado para gerar retorno. Abaixo , o g1 explica o caminho que levou a companhia à recuperação extrajudicial.

O acordo reuniu as operações de produção de açúcar e etanol da Cosan com a rede de distribuição de combustíveis da Shell no Brasil e foi aprovado pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) em 2012.

Na época, a nova empresa foi avaliada em cerca de US$ 12 bilhões, com participação dividida igualmente entre as duas sócias.

O nome Raízen surgiu da junção das palavras “raiz” e “energia”, em referência à origem da companhia no setor sucroenergético e à sua atuação no mercado de energia.

Desde então, a empresa se tornou uma das principais companhias do setor no país e a maior produtora mundial de etanol de cana-de-açúcar.

Hoje, a Raízen atua em várias etapas da cadeia de energia. A companhia produz açúcar, etanol de primeira e segunda geração, bioeletricidade e biogás e também é responsável pela distribuição de combustíveis da marca Shell no Brasil, na Argentina e no Paraguai.

Segundo dados divulgados pela própria empresa, a companhia tem mais de 46 mil funcionários e cerca de 1,3 milhão de hectares cultivados com cana-de-açúcar.

A partir de 2016, a Raízen passou a ampliar investimentos em projetos de longo prazo, muitos deles financiados com dívida.

Um dos principais focos foi a expansão da produção de etanol de segunda geração (E2G), tecnologia que utiliza resíduos da cana, como bagaço e palha, para produzir biocombustível.

A aposta estava ligada à expectativa de crescimento da demanda por combustíveis com menor impacto ambiental, em meio ao avanço das discussões globais sobre transição energética.

Nesse período, a companhia também investiu em outras frentes de energia, como projetos de geração solar e produção de biogás.

Ao mesmo tempo, o setor passou a registrar o avanço do etanol de milho, que ganhou espaço com custos competitivos e uma estrutura de produção considerada mais simples.

A expansão internacional também ganhou força a partir de 2018, quando a empresa adquiriu ativos de refino e distribuição da Shell na Argentina e passou a atuar também no Paraguai.

Além da produção de energia e biocombustíveis, a Raízen também ampliou sua atuação na distribuição e comercialização de combustíveis.

A empresa fornece combustíveis para postos da rede Shell, aeroportos e clientes corporativos, como empresas de transporte, agronegócio, mineração e indústria.

A operação inclui 68 bases de abastecimento em aeroportos e mais de 70 terminais de distribuição espalhados pelo país.

A companhia também atua no abastecimento de companhias aéreas e da aviação executiva e oferece soluções para empresas, como sistemas de gestão e controle de abastecimento de frotas.

No varejo, administra as lojas de conveniência Shell Select e Shell Café instaladas em postos de combustíveis.

A empresa também investiu em iniciativas de digitalização e mobilidade, como o Shell Box, aplicativo que permite pagar o abastecimento pelo celular e participar de programas de fidelidade.

Movimentos na holding Cosan também influenciaram o cenário do grupo. Entre eles está um investimento bilionário em ações da mineradora Vale, que perdeu valor em meio às oscilações do mercado de commodities.

No ano fiscal de 2021/2022, a Raízen registrou lucro líquido de R$ 3 bilhões. Na época, a dívida líquida era de R$ 13,8 bilhões — um nível considerado administrável em relação à capacidade da empresa de gerar caixa.

Até o terceiro trimestre do ano fiscal de 2025/2026, a empresa acumulou prejuízo de R$ 15,6 bilhões. Parte desse resultado foi influenciada por um ajuste contábil de R$ 11 bilhões.

Com isso, o peso das dívidas em relação à capacidade de geração de caixa da empresa aumentou de forma significativa.

Em teleconferência recente, executivos da empresa afirmaram que a estratégia atual envolve retomar o foco nas atividades consideradas centrais do negócio, como a produção de açúcar e etanol e a distribuição de combustíveis e lubrificantes.

Nos últimos anos, a companhia também iniciou a venda de alguns ativos e a saída de operações consideradas menos ligadas ao núcleo do negócio.

As tentativas de reforçar o capital da empresa, no entanto, enfrentaram divergências entre os sócios.

Com o aumento das pressões financeiras e a cobrança de credores, a empresa passou a buscar uma solução mais ampla para reorganizar sua estrutura de capital — processo que culminou no pedido de recuperação extrajudicial.

A Raízen afirma que a renegociação envolve apenas parte das dívidas financeiras e não afeta as operações da companhia. Leia a nota na íntegra:

"A Raízen informa que protocolou nesta quarta-feira (11) pedido de homologação de um plano de recuperação extrajudicial, voltado à reorganização de parte de suas obrigações financeiras junto a credores da companhia.

A proposta foi estruturada em diálogo com esses credores e tem como objetivo estabelecer um ambiente jurídico adequado para a negociação e implementação de ajustes em determinadas obrigações financeiras, no âmbito da estratégia da companhia de otimização de sua estrutura de capital.

A empresa ressalta que o escopo da recuperação extrajudicial é estritamente financeiro e não envolve dívidas ou obrigações operacionais. Dessa forma, permanecem integralmente preservadas as relações da Raízen com clientes, fornecedores, revendedores e demais parceiros de negócios, que seguem regidas normalmente pelos respectivos contratos.

Todas as operações da companhia continuam sendo conduzidas normalmente, incluindo o atendimento a clientes, a relação com fornecedores e a execução de seus planos de negócios.

O plano apresentado prevê prazo de até 90 dias para a obtenção das adesões necessárias à sua homologação, nos termos da legislação aplicável.

A Raízen manterá seus acionistas e o mercado informados acerca de quaisquer desdobramentos relevantes relacionados a este tema."

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