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‘Primeiro emprego’ aos 27 anos: jovem relata julgamento por nunca ter sido CLT e diz ‘olhavam com pena’

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‘Primeiro emprego’ aos 27 anos: jovem relata julgamento por nunca ter sido CLT e diz ‘olhavam com pena’

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 22/03/2026 03:18

Trabalho e Carreira 'Primeiro emprego' aos 27 anos: jovem relata julgamento por nunca ter sido CLT e diz 'olhavam com pena' Mesmo com anos de trabalho informal, jovem diz que só passou a ser visto de outra forma após conquistar vínculo com empresa — ainda que como PJ. Por Rafaela Zem, g1 — São Paulo

Jovem de 27 anos viralizou ao relatar 'primeiro emprego', mas explicou que já trabalhava há anos de forma informal.

O caso expôs como o vínculo formal ainda influenciava a forma como trajetórias profissionais são percebidas.

Especialistas apontaram que o mercado passou a valorizar mais competências do que apenas o histórico em carteira.

O debate também refletiu mudanças nas carreiras, com entradas mais tardias e novos modelos de trabalho além da CLT.

O texto, publicado por Matheus Tavares na rede X (antigo Twitter), ultrapassou 2 milhões de visualizações em poucas horas. — Foto: X/ Reprodução

Aos 27 anos, Matheus Tavares chamou a atenção da internet ao anunciar que havia conseguido o "primeiro emprego". A frase, publicada nas redes sociais, viralizou rapidamente — mas também gerou muitas criticas.

Não é que ele nunca tivesse trabalhado. Ao contrário: a trajetória começou ainda na adolescência, quando atuava como office-boy no centro de São Paulo enquanto estudava para concursos militares.

Depois disso, vieram diferentes ocupações ao longo dos anos: fotógrafo em casa noturna, motoboy, vendedor, motorista de aplicativo, mecânico, técnico em celulares, além de pequenos negócios próprios e até importação de produtos

“Não era uma cobrança direta. Mas as pessoas olhavam meio com pena, como se eu estivesse sem rumo”, conta.

O que mudou agora não foi o início da vida profissional, mas o tipo de vínculo. Pela primeira vez, Matheus passou a trabalhar diretamente para uma empresa, com um contrato e um cargo definido: engenheiro de software.

"Antes eu tinha trabalhos. Agora eu tenho um emprego. Hoje eu tenho um título, consigo dizer o que eu faço", afirma.

O novo posto, porém, não é no regime da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT). Ele foi contratado como pessoa jurídica (PJ), após abrir um CNPJ.

➡️ Ainda assim, a repercussão do caso trouxe à tona discussões que vão além da história individual: o peso do vínculo formal, o julgamento sobre trajetórias fora da CLT e a ideia de que existe um “tempo certo” para ingressar no mercado.

Criada em 1943, a CLT organiza as relações de trabalho no Brasil e garante direitos como férias, 13º salário e FGTS. Ao longo do tempo, esse modelo passou a ser associado também à ideia de estabilidade.

Dados do IBGE indicam que cerca de 38,5 milhões de brasileiros estão na informalidade, grupo que inclui trabalhadores sem carteira assinada, autônomos e parte dos que atuam por conta própria.

Para o professor Fernando Cardoso, especialista em mercado de trabalho, o vínculo formal ainda influencia a leitura sobre a trajetória de um profissional, mas deixou de ser determinante.

Segundo ele, experiências fora da CLT podem ser valorizadas, desde que apresentadas de forma estruturada, com resultados claros.

Matheus Tavares construiu uma trajetória longa, marcada por diferentes ocupações informais. — Foto: Matheus Tavares

Antes de conseguir a vaga atual, Matheus enfrentou dificuldades em processos seletivos — principalmente nas etapas iniciais.

A situação reflete um ponto levantado por especialistas: embora o mercado esteja em transição, ainda existem filtros baseados no histórico formal.

O professor Edgard Rodrigues explica que empresas mais tradicionais tendem a valorizar o registro em carteira, enquanto outras já adotam critérios diferentes.

"Há uma migração para recrutamentos que priorizam repertório, competências e capacidade de aprendizado", diz.

No caso de Matheus, o avanço veio quando ele organizou suas experiências em forma de portfólio, reunindo projetos e soluções desenvolvidas de forma independente.

A idade também apareceu como um ponto de questionamento na repercussão do caso. Mas, para especialistas, esse debate precisa ser analisado à luz de transformações mais amplas.

O economista Bruno Imaizumi, da LCA 4intelligence, explica que o mercado de trabalho brasileiro passa por mudanças estruturais que ajudam a entender trajetórias como a de Matheus. Entre elas, o envelhecimento da população, o maior tempo dedicado aos estudos e a própria redefinição do que significa construir uma carreira.

"O mercado está mais dinâmico e as pessoas permanecem mais tempo em formação. Isso faz com que a entrada no mercado formal aconteça, muitas vezes, mais tarde", afirma.

Para ele, o cenário recente também influencia esse movimento. Com a taxa de desemprego em níveis historicamente mais baixos, diferentes formas de ocupação — formais e informais — têm avançado simultaneamente.

“As carreiras estão menos lineares. O momento de entrada não define o potencial”, afirma o professor Edgard .

Para Fernando Cardoso, o modelo tradicional — estudar, se formar e ingressar imediatamente no mercado formal — já não representa a maioria das trajetórias.

"Entrar mais tarde pode significar chegar com mais repertório e mais clareza de objetivos', diz.

Ainda assim, ele ressalta que o tempo de experiência formal pode influenciar o ponto de entrada em algumas carreiras, especialmente no início.

Se o mercado amplia suas formas de avaliação, cresce também a importância de como o profissional comunica sua trajetória.

Portfólios, projetos e exemplos concretos têm ganhado espaço nesse processo, especialmente em áreas mais técnicas.

Segundo Cardoso, experiências fora da CLT costumam desenvolver habilidades valorizadas, como autonomia, adaptabilidade e resolução de problemas, mas precisam ser organizadas de forma estratégica.

A discussão também dialoga com mudanças na forma como o trabalho é percebido, principalmente entre os mais jovens, que tendem a ser mais seduzidos por trabalhos informais.

Nas redes sociais, o termo "CLT" aparece frequentemente associado a rotinas desgastantes, com longos deslocamentos e baixa remuneração — percepção que, segundo a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, está ligada às condições enfrentadas por parte dos trabalhadores.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam que alternativas como trabalho autônomo ou digital não garantem estabilidade.

'É importante considerar tanto a autonomia quanto a segurança envolvidas em cada modelo" afirma.

Foi pensando nisso que, hoje, mesmo atuando como PJ, Matheus avalia outras possibilidades, incluindo propostas no regime CLT, apesar de ainda não possuir Carteira de Trabalho.

Depois de anos em diferentes atividades, ele diz que a principal mudança não foi apenas o contrato, mas a forma como passou a organizar a própria trajetória.

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