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O que o consumo de carne de burro na Patagônia revela sobre a atualidade da Argentina
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O que o consumo de carne de burro na Patagônia revela sobre a atualidade da Argentina
Fonte: G1 Economia | Publicado em: 24/04/2026 09:07
Agro O que o consumo de carne de burro na Patagônia revela sobre a atualidade da Argentina Preços da carne bovina subiram 6,9% em março, acima da inflação mensal da Argentina de 3,4% — o maior índice dos últimos 12 meses. Por BBC
A carne bovina argentina, famosa mundialmente pela qualidade e maciez, sempre ocupou um lugar central na mesa do país.
Mas em meio à alta dos preços da carne bovina, que subiu 6,9% em março, acima da inflação mensal de 3,4%, um tipo de carne pouco tradicional começa a ganhar espaço na Argentina: a de burro.
Em Trelew, na Patagônia, a degustação e a venda desse tipo de carne ganharam os noticiários do país na última semana.
A experiência — que incluiu um açougue e um restaurante tradicional da cidade — faz parte de um projeto piloto chamado "Burros Patagônicos".
A carne bovina argentina, famosa mundialmente pela qualidade e maciez, sempre ocupou um lugar central na mesa do país.
Resultado de uma combinação de genética, alimentação e da criação do gado nas extensas planícies dos pampas — onde o relevo plano reduz o esforço físico dos animais —, os cortes são conhecidos por serem tão tenros que, como dizem locais e turistas, podem ser "cortados até com colher".
Mas em meio à alta dos preços da carne bovina, que subiu 6,9% em março, acima da inflação mensal de 3,4% — o maior índice dos últimos 12 meses — um tipo de carne pouco tradicional começa a ganhar espaço na Argentina: a de burro.
Em Trelew, na Patagônia, a degustação e a venda desse tipo de carne ganharam os noticiários do país na última semana. A experiência — que incluiu um açougue e um restaurante tradicional da cidade — faz parte de um projeto piloto chamado "Burros Patagônicos".
A iniciativa foi criada pelo produtor rural Julio Cittadini, que vinha desenvolvendo a ideia há cerca de dois anos, enquanto aguardava autorização das autoridades sanitárias locais e nacionais.
Após a aprovação, ele levou a proposta a um açougue e a um restaurante tradicional da cidade, onde a novidade rapidamente atraiu público.
Em entrevista à BBC News Brasil, a proprietária do restaurante Don Pedro, Carla Gutiérrez, disse que foram servidos pratos como empanadas, churrasco e linguiça feitos com carne de burro, que agradaram aos clientes.
"Foi um sucesso. Veio muita gente e todos gostaram. Eu também provei e gostei. A carne é parecida com a bovina, só um pouco mais escura e com menos gordura", afirmou, acrescentando que a carne se esgotou rapidamente no açougue.
Apesar da repercussão, Victor Tonelli, especialista em carnes na Argentina, afirma que o consumo de carne de burro ainda é pontual: "Não há nenhum impacto (no consumo e na produção local)" por ser algo muito especifico, diz.
Ainda assim, os chamados "bifes de jumento" chamaram atenção por refletirem um comportamento mais amplo dos consumidores: a busca por alternativas diante da perda de poder de compra.
Para Carla, não há dúvidas que parte do interesse está ligada ao preço. Ela contou que em Trelew, o quilo da carne de burro é vendido por cerca de 7.500 pesos (cerca de R$ 27), enquanto a bovina pode chegar a 18 mil ou 19 mil pesos (R$ 65 ou R$ 69) — quase três vezes mais.
A procura por opções mais baratas ocorre em um momento de pressão sobre o consumo na Argentina, impulsionada pela inflação, que acumula um aumento de 9,4% no ano.
Segundo o último relatório do Instituto Nacional de Estatística e Censos (INDEC) da Argentina, carnes e derivados estiveram entre os itens que mais subiram na categoria de alimentos, um dos principais fatores na composição da inflação.
Na Grande Buenos Aires, por exemplo, a carne registrou aumento anual de 55%, chegando a 61,5% na região Noroeste, sendo o item com a maior alta no período.
Carla Gutierrez (de cabelo preto amarrado) e sua mãe ao lado de funcionários no restaurante Don Pedro — Foto: Arquivo Pessoal
Dados recentes mostram que o consumo da carne bovina caiu cerca de 10% no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado, atingindo o menor nível em duas décadas.
Segundo Tonelli, essa queda acompanha uma mudança nos hábitos alimentares. Atualmente, o consumo total de carnes na Argentina gira em torno de 115 a 116 quilos por pessoa ao ano, incluindo cerca de 51 quilos de frango, 45 quilos de carne bovina e entre 19 e 20 quilos de carne suína.
Mas esse consumo de carne bovina já é menor que o ano passado e está e distante dos níveis históricos do país.
"No ano passado, nesta época, era de cerca de 50 quilos por pessoa. E, há 60 anos, para termos uma ideia, eram 82 quilos de carne bovina por habitante, contra apenas 12 quilos somados de frango e suína", afirmou.
Na época, como costumam lembrar os próprios argentinos, o país passou a ser visto como "carnívoro", diante da predominância da carne bovina na dieta e da menor diversidade alimentar.
Trabalhando há 60 anos como produtor rural, Cittadini afirma que o projeto não foi concebida como resposta à atual situação econômica.
Segundo ele, a iniciativa surgiu a partir das dificuldades enfrentadas pela pecuária e criação de ovelhas na região da Patagônia, devido ao clima rigoroso e o relevo irregular, além da presença de predadores.
"Foi por tudo isso que pensei no burro como alternativa. Ele é mais resistente ao meio ambiente daqui. E se adapta perfeitamente ao clima patagônico."
O que o consumo de carne de burro na Patagônia revela sobre a atualidade da Argentina — Foto: Diário El Chubut
Atualmente, Cittadini mantém cerca de 150 burros e planeja ampliar o rebanho em breve, com foco no mercado local da província de Chubut.
"É verdade que a carne de burro é mais barata que a bovina, mas o projeto não está ligado a situação econômica do momento. Já vivemos muitas crises e essa é uma mais. Estamos acostumados e sempre nos erguemos, sempre enfrentamos e superamos", disse à reportagem.
Procurado, o Serviço Nacional de Sanidade e Qualidade Agroalimentar (Senasa) informou que não há registro de exportação de carne de burro no país e que o consumo "não é habitual, mas também não é proibido".
A situação econômica da Argentina tem afetado principalmente o consumo e os setores de comércio e indústria. Segundo o economista Ricardo Arriazu, o país está diante de uma profunda mudança estrutural.
"Eu nunca tinha visto o que está acontecendo, com uma nova dinâmica nos setores de energia, mineração e do agro, que geram forte aumento de divisas para o país, mas não absorvem mão de obra. A indústria, a construção e o comércio, por sua vez, têm retrocesso", afirmou.
De acordo com a União Industrial Argentina (UIA), o setor industrial tem registrado perdas de entre 1.000 e 1.500 postos de trabalho por mês desde março do ano passado. Dados oficiais indicam ainda que a indústria argentina caiu 8,7% em fevereiro, na comparação com o mesmo mês do ano anterior, acumulando oito meses seguidos de retração.
Nesse cenário, a inflação de março (3,4%) foi o principal fator de preocupação do governo, segundo a imprensa local.
O combate à inflação foi uma das principais bandeiras da campanha de Javier Milei à Casa Rosada. No entanto, com a pressão sobre os preços — em um país com histórico de inflação elevada —, o desafio de conter a alta se tornou ainda maior.
Em discurso na semana passada, Milei pediu paciência aos argentinos e voltou a afirmar que a situação vai melhorar. "Normalmente, os políticos fingem demência ou falam de outra coisa quando recebem um dado negativo. Mas como eu sou Milei e detesto a maneira como fazem política tradicional, e como odeio a inflação, e como este dado me gerou repulsa, vou falar sobre a inflação", disse em um evento com empresários.
O Banco Mundial prevê que a economia argentina crescerá 3,6% em 2026 e 3,7% em 2027, com uma das maiores expansões da região. Porém, como observou o economista Arriazu, trata-se de um crescimento desigual.
Enquanto isso, experiências como a de Trelew seguem despertando curiosidade — seja como alternativa econômica ou como novidade gastronômica em um país onde a carne bovina sempre foi dominante.
Ainda que restrito, o consumo de carne de burro revela como mudanças no cenário econômico podem influenciar até mesmo hábitos profundamente enraizados na cultura alimentar argentina.
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