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A Lua pode virar economia? A aposta por trás dos trilhões de dólares da SpaceX

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A Lua pode virar economia? A aposta por trás dos trilhões de dólares da SpaceX

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 12/06/2026 00:46

Tecnologia A Lua pode virar economia? A aposta por trás dos trilhões de dólares da SpaceX Documentos apresentados aos investidores mostram que a empresa aposta em uma futura expansão econômica além da Terra, apesar dos desafios tecnológicos e comerciais ainda existentes. Por Janize Colaço, Darlan Helder, g1 — São Paulo

Parte da avaliação trilionária da SpaceX está ligada à aposta de que a Lua e a órbita terrestre possam abrigar atividades econômicas hoje inexistentes.

A Lua ganhou prioridade sobre Marte por permitir testar tecnologias e construir infraestrutura em ciclos mais compatíveis com os prazos dos investidores.

O Starship é visto como a peça central do plano: reduzir custos de acesso ao espaço e viabilizar operações industriais em escala fora da Terra.

Medicamentos, fibras ópticas, semicondutores, turismo espacial e estações privadas aparecem entre os mercados que poderiam surgir com custos menores.

Especialistas veem potencial na economia espacial, mas avaliam que bases lunares e data centers orbitais ainda estão longe de gerar receitas relevantes.

Mais de meio século depois do primeiro passo humano na Lua, a SpaceX tenta convencer investidores de que o próximo grande salto será econômico.

Embora ainda não existam minas, fábricas ou centros de processamento de dados operando fora da Terra, parte da avaliação de US$ 1,75 trilhão (R$ 8,93 trilhões) atribuída à companhia — que estreia na bolsa nesta sexta-feira (12) —, reflete a expectativa de que atividades desse tipo se tornem economicamente viáveis nas próximas décadas.

Essa visão aparece de forma explícita nos documentos apresentados à Securities and Exchange Commission (SEC), órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos equivalente à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no Brasil.

Neles, a empresa de Elon Musk define o espaço como "a maior fronteira econômica da história humana" e argumenta que a queda dos custos de lançamento está abrindo caminho para uma nova fase de expansão produtiva além da Terra.

🌐 Entre os projetos citados estão sistemas de geração de energia solar na superfície lunar, a extração de gelo para a produção de combustível, o aproveitamento de recursos minerais e a construção de fábricas capazes de produzir satélites e componentes eletrônicos.🚀 Os planos incluem ainda um sistema de lançamento eletromagnético a partir do satélite natural, numa espécie de "catapulta gigante" projetada para enviar cargas ao espaço sem a necessidade de foguetes.

Por mais futuristas que pareçam — dignas de um filme de ficção científica —, essas iniciativas refletem uma revisão das ambições da empresa e uma reorientação de sua estratégia para os próximos anos.

Isso porque, durante anos, o empresário sul-africano apresentou Marte como o grande objetivo da expansão humana no espaço e o destino final dos planos da SpaceX. Agora, porém, a Lua ganha protagonismo como etapa prioritária da estratégia em seus planos mais imediatos.

“A justificativa de Musk é técnica, [pois] janelas de lançamento da Lua são a cada dez dias, em vez de 26 meses de Marte”, explica Álvaro Machado Dias, professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Segundo o docente, a mudança também garantiu uma espécie de aderência ao “calendário do investidor institucional”, uma vez que a Lua pode permitir testar tecnologias, construir uma base operacional e acumular avanços de forma mais rápida, compatível com os horizontes de retorno esperados pelos investidores.

Há, porém, um elemento que conecta praticamente todas as ambições da SpaceX para a Lua: nenhuma delas existe sem o Starship, foguete desenvolvido pela companhia.

Não à toa, o veículo aparece nos planos da empresa menos como um produto comercial e mais como o que a companhia define como infraestrutura capaz de sustentar uma futura economia espacial.

Segundo a própria SpaceX, o projeto foi concebido para transportar grandes volumes de carga e tripulação de forma recorrente e economicamente viável. Há também a aposta na capacidade de reabastecimento em órbita, considerada uma peça-chave para missões mais longas e para a expansão das atividades além da Terra.

Na avaliação de Franco Granda, analista sênior de pesquisa da PitchBook, o Starship representa uma mudança estrutural na forma como o espaço pode ser explorado economicamente.

Para ele, o foguete inaugura uma nova etapa na trajetória da SpaceX, em que as missões espaciais deixam de funcionar como iniciativas pontuais e passam a se aproximar de uma lógica industrial baseada em escala, frequência e reutilização.

➡️ O principal obstáculo histórico do setor sempre foi o custo de colocar pessoas e equipamentos em órbita. A proposta da empresa de Musk é inverter essa equação: transformando o acesso ao espaço em uma atividade mais previsível e rotineira.

A expectativa da consultoria é que a combinação entre reutilização e maior capacidade de carga reduza drasticamente os custos de lançamento ao longo do tempo. Se isso acontecer, projetos que hoje parecem economicamente inviáveis poderão ganhar escala e viabilizar uma presença mais permanente fora da Terra.

"Não se trata apenas de chegar à Lua. Trata-se de criar a infraestrutura necessária para permanecer lá e operar em escala", observa Granda.

Se a economia lunar ainda soa como um conceito distante, Jan-Erik Asplund, cofundador da Sacra, empresa de pesquisa e inteligência de mercado focada em startups, procura responder à pergunta que costuma separar visão de negócio de ficção científica: onde estaria o retorno financeiro de tudo isso?

Segundo a consultoria, a queda dos custos de acesso ao espaço pode abrir caminho para atividades produtivas que hoje permanecem inviáveis. Parte dessa oportunidade estaria justamente em produzir fora da Terra.

Em alguns casos, o ambiente de vácuo e microgravidade não seria apenas um local alternativo de produção, mas uma vantagem.

➡️ A gravidade terrestre pode gerar impurezas e deformações em materiais sensíveis. Em órbita, esses efeitos tendem a ser reduzidos, permitindo fabricar produtos com características difíceis de reproduzir em solo.

Entre os exemplos citados por Asplund estão medicamentos produzidos em microgravidade, fibras ópticas especiais usadas em telecomunicações e lasers, além de wafers de silício — lâminas que servem de base para a fabricação de semicondutores.

💊 A estimativa da consultoria é que apenas o mercado de medicamentos produzidos nessas condições possa movimentar US$ 10 bilhões (R$ 51 bilhões) até 2030. 🔬 No caso das fibras ópticas do tipo ZBLAN, cuja fabricação é favorecida pela ausência de gravidade, o potencial de mercado nesse período é estimado em US$ 12 bilhões (R$ 61,2 bilhões), enquanto o segmento global de wafers de silício supera US$ 150 bilhões (R$ 765,2 bilhões).🚀 Já no turismo espacial se espera que a reutilização de veículos como o Starship reduza gradualmente os custos de acesso à órbita, ampliando um mercado que a Sacra projeta em quase US$ 4 bilhões (R$ 20,4 bilhões) até 2032.

"As pessoas costumam imaginar o espaço apenas como um lugar para lançar satélites. Mas a lógica da próxima etapa é usar o ambiente espacial para fabricar produtos que seriam mais difíceis ou mais caros de produzir na Terra", afirma Asplund.

Outro segmento apontado pelo especialista envolve as futuras estações espaciais privadas. Com a Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês) se aproximando do fim de sua vida útil, a expectativa é que parte dos recursos hoje destinados à sua manutenção seja direcionada para plataformas comerciais em órbita.

Segundo a Sacra, essa transição pode abrir caminho para uma nova geração de laboratórios, fábricas e centros de pesquisa operados por empresas privadas.

Nos documentos apresentados à SEC, a companhia afirma que vê o espaço não apenas como um local para fabricar produtos, mas também como uma futura base para sustentar a expansão da inteligência artificial.

➡️ A empresa argumenta que o crescimento da inteligência artificial exige volumes cada vez maiores de energia e processamento, pressionando a infraestrutura terrestre. Como resposta, planeja desenvolver uma rede de satélites capazes de funcionar como centros de processamento de dados em órbita, alimentados por energia solar.

Segundo a companhia, essa arquitetura reduziria parte dos custos associados aos grandes centros de dados terrestres. Em órbita, o calor dos equipamentos poderia ser dissipado diretamente para o espaço, diminuindo a necessidade de estruturas convencionais de refrigeração.

“O espaço oferece o potencial de acesso a uma fonte de energia praticamente ilimitada e um ambiente operacional capaz de sustentar computação de alta densidade de forma contínua. Isso inclui vantagens estruturais para geração de energia, resfriamento dos equipamentos e operações ininterruptas à medida que a capacidade aumenta”, afirma a empresa em seu prospecto de abertura de capital.

A SpaceX diz que pretende iniciar a implantação dessa estrutura a partir de 2028. Mais uma vez, o Starship aparece como peça central, já que a companhia considera o foguete indispensável para transportar ao espaço os equipamentos necessários para sustentar essa rede.

Nos cálculos de Asplund, o movimento também representa uma tentativa de disputar uma parcela do mercado global de serviços em nuvem, estimado em US$ 200 bilhões (R$ 1,02 trilhão). Ele ressalta que a empresa mantém conversas com o Google para avaliar a possibilidade de hospedar conjuntamente centros de processamento de dados em órbita.

“Caso avance, a parceria serviria como uma validação da demanda corporativa por infraestrutura de computação espacial e poderia ajudar a garantir as primeiras receitas do programa de constelação de satélites voltados à inteligência artificial”, afirma.

Embora Franco Granda projete que a economia espacial global possa alcançar US$ 1,8 trilhão (R$ 9,18 trilhões) até 2035, ele adota uma postura cautelosa quando analisa algumas das iniciativas mais ambiciosas da SpaceX.

Projetos como data centers orbitais e uma futura base industrial na Lua aparecem na análise como possibilidades de longo prazo — não como fontes concretas de receita para os próximos anos, cuja realização ainda depende de uma série de avanços tecnológicos, operacionais e econômicos.

"A ideia não é dizer que esses projetos são impossíveis. A questão é que eles estão muito além de qualquer horizonte de planejamento de curto prazo", avalia o analista sênior da PitchBook.

🌙 Ele considera propostas como a Moonbase Alpha — um assentamento lunar voltado à produção industrial — conceitualmente plausíveis, mas agressivas em cronograma. A avaliação é que a construção de uma estrutura permanente na Lua seria um projeto medido em décadas, não em anos.

Por isso, Granda atribui receita praticamente zero a iniciativas como bases lunares e computação orbital em seus modelos financeiros atuais.

“A SpaceX será apresentada [aos investidores] tendo a Starlink como motor de geração de caixa, complementada por diversas apostas de valorização futura, como a escala proporcionada pelo Starship, a conectividade direta para dispositivos móveis e a computação orbital”, afirma.

Nos documentos apresentados à SEC, a própria companhia descreve o satélite natural como uma etapa intermediária rumo a objetivos ainda mais amplos, incluindo o conceito de civilização Kardashev Tipo II (entenda mais abaixo).

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