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Com guerra e alta dos combustíveis, transporte volta a ser ‘vilão’ do orçamento das famílias
RCPB Contabilidade Construtiva e Estratégica
Com guerra e alta dos combustíveis, transporte volta a ser ‘vilão’ do orçamento das famílias
Fonte: G1 Economia | Publicado em: 15/07/2026 04:47
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O que mais pesa no orçamento das famílias brasileiras no fim do mês? Em junho, os três principais gastos apontados pela população foram alimentação, contas de serviços públicos e aluguel ou financiamento da moradia.
Mas um item chamou atenção: o transporte passou a ocupar um espaço muito maior no bolso dos brasileiros em comparação com o mesmo período do ano passado.
Os dados fazem parte da 13ª edição dos Indicadores de Qualidade do Trabalho da Sondagem do Mercado de Trabalho do FGV Ibre, divulgada nesta terça-feira (14).
Na sondagem, o transporte apresentou a maior variação em relação ao mesmo período do ano anterior. Entre quem apontou o transporte como uma das três despesas que mais pesam no orçamento, o percentual de entrevistados passou de 2% em junho de 2025 para 27,6% em junho de 2026, alta de 25,6 pontos percentuais.
Na avaliação de Rodolpho Tobler, superintendente adjunto do FGV Ibre, o avanço do transporte entre os principais gastos das famílias está relacionado ao aumento dos custos de deslocamento, especialmente dos combustíveis.
“Tínhamos um percentual baixo falando desse fator [o transporte] no ano passado e, agora, ele é um dos três maiores gastos mensais das famílias”, ressalta.
Segundo o pesquisador, a alta está ligada aos impactos do conflito no Oriente Médio sobre o mercado de petróleo.
“Isso faz com que haja mais ruídos e aumentos nos preços dos combustíveis e do transporte em si, seja individual ou coletivo. Esse é um fator que deve permanecer ainda em um patamar elevado”, explica.
Segundo Gustavo Assis, CEO da Asset Wealth Management, o comportamento acompanha a trajetória dos preços ao consumidor. “O subgrupo de transportes no IPCA segue entre os mais voláteis, fortemente influenciado pelos combustíveis, pelas tarifas de transporte público e pelo custo dos veículos”, diz.
Embora 69,1% dos entrevistados pela pesquisa afirmem ter conseguido pagar as contas essenciais nos últimos três meses — abril, maio e junho —, esse percentual vem caindo desde fevereiro, quando era de 72,4%. Isso significa que menos pessoas têm conseguido fechar o mês com as contas em dia.
Para Tobler, do FGV Ibre, o resultado mostra que o principal movimento não é necessariamente uma queda da renda, mas um aumento da pressão dos custos sobre o orçamento das famílias.
“Há duas óticas: ou as pessoas estão ganhando menos ou estão tendo mais custos. E me parece que é mais uma pressão de custos do que uma redução de ganhos”, explica.
Segundo o especialista, embora o crescimento da renda não esteja no mesmo ritmo de antes, o mercado de trabalho ainda permanece estável. O problema é que o aumento dos gastos reduz a percepção de bem-estar das famílias.
Para André Matos, CEO da MA7 Negócios, os dados mostram que o orçamento das famílias continua concentrado principalmente em despesas que não podem ser adiadas.
“Com 75% das famílias citando alimentação entre as maiores despesas, metade citando contas de serviços públicos e quase metade moradia, o orçamento brasileiro está concentrado no que é inadiável”, diz.
A pesquisa também avaliou a percepção dos trabalhadores sobre a satisfação com o emprego. No trimestre encerrado em junho, 64% dos entrevistados se declararam satisfeitos. O resultado, porém, representa uma queda em relação a janeiro deste ano, quando era de 68%.
Entre os fatores que explicam a insatisfação com o trabalho, a baixa remuneração aparece como o principal motivo apontado pelos entrevistados, citado por 57,9%.
Para Tobler, a satisfação está relacionada também ao fato de a renda não acompanhar o aumento dos custos. Segundo ele, a pesquisa mostra que o trabalhador continua inserido no mercado, mas sente uma pressão maior sobre o orçamento.
A mobilidade também dificulta uma melhora: 41% dos entrevistados consideram difícil conseguir emprego no Brasil.
“Se a desaceleração continuar na economia, as pessoas entendem que o mercado de trabalho pode piorar nesse cenário. Então, existe uma certa cautela dos trabalhadores olhando para frente”, reitera.
Na avaliação de Matos, da MA7 Negócios, essa combinação reflete um mercado em que o trabalhador acredita ser capaz de encontrar uma nova fonte de renda, mas não necessariamente conta com uma rede de proteção.
“Uma parcela grande dos brasileiros trabalha na informalidade ou por conta própria, e nesse tipo de ocupação conseguir uma nova fonte de renda, um bico, um serviço, uma entrega é o mais comum. Só que essa mesma facilidade de entrada é a marca do vínculo frágil, sem seguro-desemprego, sem FGTS, sem colchão”, afirmou.
Segundo ele, esse cenário gera uma percepção dupla: confiança na capacidade de encontrar alguma fonte de renda, mas insegurança diante de uma eventual perda de rendimento. “É um mercado que dá chão, mas não dá rede”, disse.
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