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Café que fica no Brasil é ruim? Entenda de onde vem essa ideia e se ela é verdadeira
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Café que fica no Brasil é ruim? Entenda de onde vem essa ideia e se ela é verdadeira
Fonte: G1 Economia | Publicado em: 28/03/2026 07:12
Agro Café que fica no Brasil é ruim? Entenda de onde vem essa ideia e se ela é verdadeira Percepção surgiu nos anos 80 por causa da pouca fiscalização, mas cenário não corresponde mais à realidade, dizem associações e pesquisador. Por Paula Salati, g1
A ideia de que o Brasil só exporta o café bom e consome o ruim ficou no passado, quando o controle de qualidade era baixo e havia muitas fraudes nos pacotes.
Nos anos 1980, o governo fixava preços e não estimulava a busca por qualidade, o que fazia com que os melhores grãos fossem exportados.
Mas essa história começou a mudar em 1989, quando a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) começou exigir que as empresas só produzissem pacotes com 100% grãos de café.
Em 2023, o Ministério da Agricultura definiu um padrão de qualidade para o café torrado, o que deu respaldo às fiscalizações do governo, como as recentes operações que apreenderam marcas de "café fake".
No entanto, o café especial, que é mais caro, continua sendo mais exportado, embora consumo no Brasil tenha crescido.
Quem nunca ouviu falar que o café bom que o Brasil produz é exportado e o ruim fica para o brasileiro consumir? A ideia, no entanto, não reflete a realidade atualmente.
Quando Parreiras fala de passado, ele se refere aos anos de 1980. Naquele período, o governo controlava pouco a qualidade do café, abrindo espaço para inúmeras fraudes, como a mistura de cevada e milho aos grãos, conta um artigo publicado pelo Inmetro em 1998.
"E isso desestimulava o mercado a buscar qualidade porque, independentemente do café colocado na embalagem — fosse ele de baixa ou altíssima qualidade —, o preço final seria o mesmo", lembra Parreiras.
Os produtores acabavam direcionando os melhores grãos para outros países, que pagavam mais do que o governo brasileiro.
Mas essa história começou a mudar em 1989, quando o governo transferiu para a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic) a responsabilidade de fiscalizar o mercado, conta o atual presidente da entidade, Pavel Cardoso.
Preocupada com a queda do consumo de café no país entre os anos 60 e 80– justamente pela baixa qualidade –, a Abic começou a exigir que as empresas produzissem pacotes feitos com 100% grãos de café.
Foi nesse momento da história que o ator Tarcísio Meira entrou em cena, protagonizando diversas propagandas da associação. "Por trás desse selo, só tem café", dizia o artista nas campanhas.
Em 2022, o Ministério da Agricultura estabeleceu um padrão de qualidade para o café torrado, proibindo que os pacotes tenham mais de 1% de impurezas e matérias estranhas em sua composição.
Exemplos de impurezas são galhos, folhas e cascas. Já as matérias estranhas são pedras, areia, grãos ou sementes de outras espécies vegetais. O pacote também não pode ter qualquer elemento estranho, como corantes e açúcar.
Essas regras, que entraram em vigor em 2023, deram respaldo às fiscalizações do governo, como as recentes operações que apreenderam as marcas de "café fake".
A partir dos anos 90, com o fim da intervenção estatal nos preços e avanço da fiscalização, produtores brasileiros começaram a olhar mais para o mercado interno e a investir na produção de grãos de mais qualidade, conta o pesquisador do IAC.
Em 1991, por exemplo, foi fundada a Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), um segmento da indústria que produz cafés com grãos 100% maduros, e que não podem ter nenhum defeito.
É um tipo de café mais caro e que é sim mais exportado do que vendido no Brasil, apesar de o consumo interno ter crescido, conta o diretor-executivo da BSCA, Vinicius Estrela.
Em 2015, por exemplo, somente 1% do grão especial produzido no Brasil era consumido internamente. Hoje, essa parcela é de 15%.
"Em alguns mercados, o café especial é mais forte porque são mercados de renda mais alta, como Europa, EUA, Japão, Coreia do Sul", explica Estrela.
Na época, o órgão responsável por gerir as políticas públicas do setor era o Instituto Brasileiro do Café (IBC), fundado em 1952 e que existiu até 1989.
Uma lei de 1978 já estabelecia um limite de tolerância de até 1% de impurezas, mas a fiscalização, a cargo do próprio IBC, era ineficiente, conta.
Esse cenário, somado a um período longo de seca em 1986, que reduziu a produção, criou um ambiente propício para fraudes.
Em 1989, por exemplo, 30% do volume total de café comercializado no Brasil era fraudado, ou seja, continham impurezas, apontou uma pesquisa da Abic.
"Os torrefadores não tinham incentivo porque não poderiam repassar essa diferença ao consumidor. Não havia espaço para segmentar o mercado ou fomentar o consumo de cafés de qualidade", reforça Parreiras.
A formação de estoques de café era outro fator que "jogava contra" a qualidade, comenta o diretor-executivo da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA), Vinicius Estrela.
"Por um bom tempo, o Brasil produziu excedentes de café, que eram comprados pelo IBC para garantir estabilidade de preços em momentos em que a produção brasileira superava muito a demanda", conta Estrela.
De tempos em tempos, parte do café estocado era vendido no mercado interno. "E, evidentemente, cafés com tanto tempo de armazenagem não eram bons cafés", observa.
Tudo isso fez o café chegar no final dos anos 80 com fama de ruim entre os brasileiros. Se, em 1965, cada pessoa consumia 4,8 kg de café por ano, em 1989, essa quantidade caiu para 2,27 kg, segundo o Inmetro.
Uma pesquisa de 1987 encomendada pela Abic a Vox Populi constatou que, para o consumidor brasileiro, "todo o café era igual", "a maioria tem mistura" e que "o melhor produto era exportado".
Em 1989, o governo extinguiu o IBC e passou para a Abic a responsabilidade de auto-regulamentar o mercado.
Preocupada com as pesquisas de opinião, a associação lançou o Selo de Pureza, exigindo que as indústrias só produzissem pacotes com 100% de grãos de café.
🔍Para isso, a Abic passou a fazer auditorias nas empresas associadas. As que seguiam as regras, podiam colocar o selo da entidade em seus pacotes, como acontece até hoje.
Além disso, a associação passou a recolher amostras de pacotes em supermercados para checar se as indústrias que não eram associadas estavam cometendo fraudes.
"Empresas que não atendiam às especificações eram notificadas, advertidas, suspensas ou até expulsas do quadro de associados. Para não associados, a Abic acionava o Ministério Público para fazer cumprir a lei", detalha Cardoso.
Ele conta que as "saudosas propagandas" com o ator Tarcísio Meira, veiculadas "durante cinco anos ininterruptos" na televisão, foram muito importantes para construir uma boa imagem do café brasileiro.
Uma reportagem veiculada pelo Fantástico, em 1º de dezembro de 2002, mostrou como funcionavam os testes de qualidade da Abic naquele período. Reveja abaixo.
O selo da Abic foi aprimorado ao longo dos anos. Atualmente, as indústrias precisam passar por quatro etapas de análise para obter a certificação. São elas:
a microscópica: que avalia a pureza do café. Ou seja, certifica que se o produto possui adição de outros ingredientes, por exemplo;a sensorial: os cafés são provados às cegas por especialistas, que verificam a qualidade e classificam o tipo do produto: tradicional, extraforte, superior, gourmet e especial;a auditoria de boas práticas: técnicos visitam a fabricante para avaliar se os itens obrigatórios de fabricação são cumpridos, como higiene e qualidade do café;e o monitoramento na gôndola: amostras dos cafés certificados são coletadas diretamente nas prateleiras dos mercados, sem aviso prévio, para garantir que o produto segue dentro dos padrões exigidos — mesmo após a certificação.
Outro marco importante aconteceu em 2023, quando o governo federal voltou a fazer parte da regulamentação do mercado, a partir da publicação da portaria 570, que estabeleceu regras para a composição do café torrado.
A norma mais conhecida é, justamente, o limite de tolerância de até 1% de impurezas, mas a portaria é muito mais ampla e detalhada do que a lei de 1978, conta o presidente da Abic, que, inclusive, ajudou o governo a construir a regulamentação.
Cardoso destaca que o controle dos cafés iniciado há 36 anos incentivou os agricultores a investirem mais na qualidade do grão, cenário que abriu espaço para um maior desenvolvimento de cafés premiados mundo afora.
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Ministério da Agricultura proíbe que o café brasileiro tenha mais de 1% de impurezas. — Foto: Mike Kenneally/Unplash
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