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Demitido menos de uma hora após assumir, procurador contesta exoneração na Justiça dos EUA

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 26/07/2026 05:53

Trabalho e Carreira Demitido menos de uma hora após assumir, procurador contesta exoneração na Justiça dos EUA Ação pode definir se o governo pode demitir procuradores federais nomeados por juízes antes da confirmação de um indicado pelo Senado. Por Associated Press — São Paulo

O juiz Roger Rogoff, do Tribunal Superior do Condado de King, em audiência realizada em 10 de outubro de 2016, em Seattle — Foto: AP/Ted S. Warren, Arquivo

Demitido menos de uma hora após tomar posse, o principal procurador federal de Seattle, nos Estados Unidos, entrou com uma ação judicial para contestar sua exoneração na última terça-feira (22). O caso inaugura um novo capítulo na disputa sobre os esforços do governo Trump para controlar quem ocupa os poderosos cargos do Departamento de Justiça.

Roger Rogoff é o mais recente de uma série de procuradores federais nomeados por tribunais que foram destituídos pelo governo Trump. No entanto, acredita-se que seja o primeiro desse grupo a recorrer à Justiça para contestar a medida. Sua ação cria um caso inédito que deverá testar a autoridade do Departamento de Justiça para demitir procuradores federais nomeados por juízes.

Rogoff foi escolhido por unanimidade pelos juízes federais do Distrito Oeste de Washington para assumir o cargo de procurador dos Estados Unidos na região. Mas, pouco depois de tomar posse, recebeu um e-mail informando que o presidente Donald Trump havia determinado sua demissão.

A ação sustenta que a exoneração foi inconstitucional e desrespeitou a autoridade dos juízes do distrito, que o haviam nomeado para exercer a função até que a vaga fosse preenchida por um indicado confirmado pelo Senado. O processo pede uma decisão judicial que declare a demissão "ilegal e sem efeito" e permita que Rogoff permaneça, ao menos temporariamente, no cargo.

“As ações do presidente violam a lei e ignoram as proteções da Constituição dos Estados Unidos”, afirmou Rogoff em comunicado divulgado pelo escritório de advocacia que o representa. “Sua remoção, assim como a de outros procuradores federais nomeados pelos tribunais em todo o país, é ilegal e não pode ser tolerada.”

Os procuradores dos Estados Unidos, responsáveis por comandar os escritórios regionais do Departamento de Justiça em todo o país normalmente são indicados pelo presidente e posteriormente confirmados pelo Senado.

➡️ Quando surge uma vaga, o procurador-geral pode nomear um ocupante interino por até 120 dias. Se esse período expira sem a confirmação de um novo indicado pelo Senado, os juízes federais do distrito têm autoridade para fazer uma nomeação temporária — como ocorreu no caso de Rogoff — válida até a escolha de um titular definitivo.

Sob o governo Trump, porém, o Departamento de Justiça tem buscado manter procuradores não confirmados em seus cargos por períodos mais longos ou substituir procuradores nomeados pelos tribunais.

O Distrito Oeste de Washington não tem um procurador federal confirmado pelo Senado desde 2023. Rogoff apresentou sua candidatura após os juízes sinalizarem, em janeiro, a intenção de preencher a vaga aberta com o encerramento do mandato de 120 dias de Charles Neil Floyd, que havia sido nomeado interinamente no ano anterior pela então procuradora-geral Pam Bondi.

Segundo a ação judicial, mesmo antes da escolha de Rogoff, o procurador-geral interino Todd Blanche já havia indicado que pretendia demitir qualquer pessoa nomeada pelos juízes.

Após o tribunal anunciar a formação de um comitê de seleção baseado em mérito, Blanche escreveu na rede social X que os candidatos não contavam com o apoio do presidente e que provavelmente teriam “o mesmo destino de outros quando os juízes ignoram o Artigo II” da Constituição.

“Juízes distritais podem nomear temporariamente um procurador dos EUA, e o presidente pode demiti-lo”, escreveu.

Segundo ele, os juízes do Distrito Oeste de Washington “abandonaram o processo tradicional de consulta ao governo para garantir que o procurador escolhido estivesse qualificado para servir na administração”. “Roger Rogoff foi demitido pelo presidente”, acrescentou.

O Departamento de Justiça afirmou em nota divulgada que “o tribunal distrital não coordenou essa seleção com o Departamento de Justiça” e que a decisão está “plenamente dentro da autoridade do presidente”.

Washington não é o único estado a registrar embates entre o Judiciário e o governo Trump sobre a ocupação de cargos de procuradores federais.

Em Nova Jersey, a ex-advogada pessoal de Trump, Alina Habba, deixou o cargo em dezembro após um tribunal de apelações decidir que ela estava exercendo a função de forma ilegal.

Na Virgínia, Lindsey Halligan, outra advogada ligada a Trump e nomeada pela administração republicana, também deixou o cargo de procuradora federal interina depois que um juiz concluiu que sua nomeação era irregular.

Na mesma decisão, o magistrado determinou que fossem rejeitadas as acusações apresentadas por Halligan contra a procuradora-geral de Nova York, Letitia James, e contra o ex-diretor do FBI James Comey.

O processo movido por Rogoff pode agora definir os limites da autoridade presidencial sobre procuradores federais nomeados pelos tribunais e estabelecer um importante precedente para futuras disputas entre o Executivo e o Judiciário.

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Mundo bebe cada vez menos cerveja, e cervejarias em crise penam para se reinventar

Fonte: G1 Empreendedorismo | Publicado em: 26/07/2026 05:53

Empreendedorismo Mundo bebe cada vez menos cerveja, e cervejarias em crise penam para se reinventar Produção da bebida vem caindo até na Alemanha, onde as cervejarias atravessam uma grave crise. EUA, China, Austrália e outros também registraram quedas. Brasil segue tendência contrária. Por Deutsche Welle

Na Alemanha, país mundialmente conhecido pela cultura da cerveja, o consumo da bebida vem caindo drasticamente — Foto: Robert B. Fishman/picture alliance

A produção de cerveja caiu 0,7% em nível global, totalizando 189,6 bilhões de litros em 2025, segundo uma análise da BarthHaas, a maior comerciante de lúpulo do mundo, com sede em Nuremberg, na Alemanha. Esse número também inclui as cervejas sem álcool, que vêm ganhando popularidade em algumas partes do mundo.

A produção caiu particularmente na Austrália e Oceania, onde a diminuição foi de 2,4%. Mas essa região, com 1,8 bilhão de litros, representa apenas uma pequena fração do consumo global da bebida.

A queda ocorreu também nos principais países produtores de cerveja. Na Europa, a produção caiu 1,6%, para 51 bilhões de litros. Os resultados foram influenciados, em particular, pelas quedas registradas na Alemanha e na Polônia.

Ainda assim, a Alemanha manteve a sexta posição entre os maiores produtores de cerveja do mundo, com 7,9 bilhões de litros, atrás da China, Estados Unidos, Brasil, México e Rússia.

No continente asiático, a produção caiu 1,2%, para 59 bilhões de litros. O aumento registrado na Índia foi mais do que compensado pelas quedas de produção na China, Vietnã, Japão, Coreia do Sul e Mianmar. Os chineses, no entanto, continuam sendo, de longe, os maiores produtores de cerveja do mundo, responsáveis por mais de um sexto da produção global.

A América do Norte também teve uma queda significativa, de 1,9%, para 34 bilhões de litros. O fato de a produção apenas nos Estados Unidos ter caído quase um bilhão de litros, para pouco mais de 17 bilhões, não foi suficiente para compensar a alta substancial registrada no México, que atingiu quase 15 bilhões de litros.

Na América do Sul, a produção aumentou 1,7%, para 25 bilhões de litros, principalmente graças ao Brasil, cuja produção subiu para mais de 15 bilhões de litros. O aumento foi ainda maior na África, chegando a 2,6%, para quase 17 bilhões de litros.

A Alemanha é atualmente a maior produtora mundial de lúpulo tanto em área cultivada quanto em volume de colheita, com o país se mantendo à frente dos Estados Unidos. No entanto, a produção global do ingrediente essencial na fabricação da cerveja também está em declínio, em ritmo ainda mais acelerado do que a produção de cerveja.

A área global de cultivo de lúpulo diminuiu 5,5%, para 52.660 hectares. O volume da colheita caiu 3,8%, chegando a 109.188 toneladas. A quantidade, no entanto, ainda é excessiva, segundo especialistas. "A produção voltará a superar a demanda em 2025", afirmou Heinrich Meier, da BarthHaas.

A empresa não acredita em um crescimento na produção de cerveja este ano. "Prevemos que a produção permanecerá praticamente inalterada, talvez até um pouco menor", declarou o diretor-geral da BarthHaas, Thomas Raiser. "O crescimento na África, Ásia e América Central e do Sul provavelmente será compensado pelas quedas na Europa e na América do Norte."

De acordo com o Departamento Federal de Estatísticas (Destatis), as cervejarias alemãs registraram em 2025 a maior queda nas vendas desde o início dos registros, em 1993. As vendas caíram 6% em comparação com o ano anterior, para cerca de 7,8 bilhões de litros.

Até mesmo grandes cervejarias, como a Veltins, vêm enfrentando dificuldades. A empresa somente conseguiu aumentar suas vendas de bebidas no primeiro semestre de 2026 por meio da aquisição da marca Karamalz – uma cerveja sem álcool de sabor levemente caramelizado. As vendas de sua principal marca, Veltins Pils, caíram aproximadamente 4,3%.

Outro exemplo notável é o Grupo Warsteiner. Em maio, a empresa anunciou o fechamento de sua cervejaria em Herford e a venda de outra unidade de produção em Paderborn. Cerca de 220 empregos foram afetados.

Essas empresas são representativas de todo o setor. De acordo com a Associação Alemã de Cervejeiros, cerca de 100 cervejarias fecharam as portas desde o final de 2019. O diretor-geral da entidade, Holger Eichele, teme que mais cervejarias sigam o mesmo caminho.

Área global de cultivo de lúpulo, ingrediente fundamental na fabricação da cerveja, diminuiu 5,5%, — Foto: Armin Weigel/dpa/picture alliance

As cervejarias enfrentam uma dupla crise. Por um lado, os custos com energia, pessoal, produção, transporte e embalagem vêm aumentando — em parte devido às crises internacionais.

Por outro lado, os consumidores vêm demonstrando cautela em tempos de incertezas econômicas. Além disso, muitos alemães — especialmente os mais jovens — optam por se abster completamente do álcool.

Para compensar a queda nas vendas, cada vez mais cervejarias se voltam para bebidas não alcoólicas. A gama de produtos se multiplicou nas últimas décadas, incluindo sucos de frutas gaseificados, refrigerantes, bebidas energéticas e água aromatizada.

Muitas empresas querem vender mais bebidas não alcoólicas para atingir o público que não gosta de cerveja, ao mesmo tempo em que visam preservar suas marcas tradicionais.

De acordo com a Associação Alemã de Cervejeiros, as cervejas sem álcool já detêm uma participação de mercado de mais de 10%. A Alemanha está à frente de outros países nesse quesito. "Somos campeões europeus na produção de cervejas sem álcool", afirmou Holger Eichele.

Especialistas, no entanto, alertam que isso pode funcionar para algumas empresas, mas não para todas, uma vez que o mercado já está saturado e terá que encolher.

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Arroz, café, trigo e mais: como a crise dos fertilizantes — em ano de El Niño — pode pressionar preços

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 26/07/2026 04:53

Agro Arroz, café, trigo e mais: como a crise dos fertilizantes — em ano de El Niño — pode pressionar preços Guerra no Oriente Médio, encarecimento dos insumos e problemas de logística podem levar produtores a reduzir a adubação das lavouras nesta safra. Por Vivian Souza, g1

A alta dos preços dos fertilizantes e a dificuldade para transportar o produto podem levar agricultores a reduzirem a adubação nesta safra, afetando a produção de alimentos como arroz, laranja, café e trigo.

O Oriente Médio é o quarto maior fornecedor do Brasil, depois da Europa, Ásia e África. A região tem um papel central no mercado de fertilizantes por causa do Estreito de Ormuz.

Como consequência dos períodos em que a rota ficou fechada durante a guerra — sendo o mais recente iniciado no último sábado (11) —, os preços dispararam e o acesso dos produtores ficou mais difícil.

As lavouras que não recebem a adubação adequada podem ter uma queda na produtividade, afetando a quantidade disponível no mercado, a qualidade dos produtos e, consequentemente, os preços.

A alta dos preços dos fertilizantes e a dificuldade de transporte podem levar agricultores a reduzirem a adubação nesta safra, afetando a produção de alimentos importantes para a cesta de consumo do brasileiro, como arroz, laranja, café e trigo, apontam especialistas entrevistados pelo g1.

O Oriente Médio é o quarto maior fornecedor do Brasil, depois da Europa, Ásia e África. A região tem um papel central no mercado de fertilizantes por causa do Estreito de Ormuz, que tem fluxo de transporte instável desde o início da guerra entre Estados Unidos e Irã.

Além de rota fundamental para o mercado de petróleo, essa é a rota por onde passa cerca de um terço do comércio marítimo de fertilizantes, segundo dados da Consultoria Agro do Itaú BBA. Ela responde por mais de 40% das exportações globais de ureia, além de uma parcela relevante da amônia, cerca de metade do enxofre.

Como consequência dos períodos em que a rota ficou fechada durante a guerra, os preços dispararam e o acesso dos produtores ficou mais difícil. A dificuldade de acesso ao petróleo também tem gerado escassez de enxofre no mundo. O insumo é usado na produção de fertilizantes fosfatados, dos quais o Brasil importa 80% do que consome.

Resultado é que, entre janeiro e maio, o país importou cerca de 45% menos do produto que no mesmo período do ano passado.

Diante desse cenário, indústrias de fertilizantes no Brasil têm reduzido a produção, caso da Mosaic, uma das maiores empresas globais do setor.

🔎 Mas por que ter menos fertilizante é ruim? As lavouras que não recebem a adubação adequada podem ter uma queda na produtividade, afetando a quantidade disponível no mercado, a qualidade dos produtos e, consequentemente, os preços, explica Felippe Serigati, pesquisador da FGV Agro.

A falta de fertilizante por si só pode não causar um impacto tão grande, mas é mais um problema que se soma ao cenário no campo e que se torna preocupante, aponta o pesquisador.

🔎 O fenômeno é marcado pelo aquecimento das águas do Oceano Pacífico, o que altera os padrões do clima no mundo. Nas regiões produtoras, ele pode causar secas e chuvas fora de hora, prejudicando a plantação.

"É difícil saber qual que vai ser a contribuição de cada um desses choques para uma possível alta no preço de alimentos", explica Serigati.

Confirmados os problemas, o impacto nos preços deve aparecer apenas no ano que vem, já que os efeitos atingirão a safra que será plantada neste semestre.

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Para o analista de insumos do Rabobank Bruno Fonseca, um dos principais efeitos da alta dos fertilizantes é o aumento do custo de produção, em um momento em que os agricultores já enfrentam endividamento.

"Temos produtores que não tiveram condição de acessar o crédito, de comprar fertilizantes e vão tender a reduzir o uso do adubo”, afirma o analista.

Segundo Fonseca, o único adubo que poderia ser retirado totalmente da lavoura nesses casos seria o fósforo, já que existe um estoque do elemento no solo. Mas, neste ano, isso não deve acontecer. “Parte desse estoque no solo já vem sendo consumido nos últimos anos, não vai ser possível reduzir muito”, explica.

Para ele, todas as culturas podem ser afetadas pela escassez de fertilizantes e pela alta dos preços. E as compras do produto pelos agricultores já estão atrasadas para as safras de verão, aponta.

Já para Wharlhey Nunes, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, os grandes produtores não devem ser muito impactados. “Muitos deles contam com tecnologia em níveis altos e ideais de aplicação por um tempo. Então, isso cria um certo resíduo do solo, principalmente para nutrientes”, explica.

Além disso, eles ainda têm acesso ao crédito e melhor planejamento de compras, o que reduz os impactos da guerra. Por outro lado, ele concorda que agricultores menores, que dependem do mercado local para comprar insumos e não têm acesso fácil nem suficiente ao crédito devem reduzir a aplicação.

Ele também acredita que isso deve ocorrer entre produtores de culturas com menor rentabilidade, como trigo, café, laranja e arroz.

Além disso, Serigati, da FGV, pontua que o fertilizante pode não chegar a tempo para agricultores que estão mais longe dos portos que recebem esses produtos, caso de Rondônia. Segundo ele, a entrada do adubo costuma ocorrer principalmente por portos do Sul do país.

Para os especialistas, apesar da redução do uso de fertilizantes, os impactos podem ser menores se as chuvas ocorrerem nos períodos adequados para o desenvolvimento das lavouras. Mas, em ano de El Niño, isso pode não acontecer.

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O Brasil é altamente dependente das importações para suprir a demanda de fertilizantes: o país compra do exterior 85% do que consome.

Até maio deste ano, foi importado 1,5% a menos do que no mesmo período de 2025, segundo dados do Itaú BBA. Só de ureia, a queda foi de 27%.

Segundo Fonseca, logo depois do início do conflito, em fevereiro, os preços dos fertilizantes começaram a subir em todo o mundo. Somente nas três primeiras semanas da guerra, o preço da ureia subiu 46%, segundo levantamento do Rabobank.

Em junho, com a rota aberta, houve alívio nos preços. A ureia voltou aos patamares anteriores ao conflito, aponta o Itaú BBA. Mas, com o novo fechamento da rota, os preços voltaram a subir.

Em meio à insegurança sobre o acesso aos fertilizantes, fornecedores importantes decidiram restringir a exportação e priorizar no mercado interno. A China, responsável por 26% de tudo o que o Brasil comprou em 2025, foi um desses casos.

A Rússia, origem de 23% das importações brasileiras, também. Além de buscar garantir o abastecimento interno, o país enfrenta uma escalada da guerra com a Ucrânia no Mar Negro, o que limita o transporte, afirma Serigati, da FGV.

De forma geral, 45% dos fertilizantes importados pelo Brasil vêm de países com alta propensão à instabilidade política ou violência motivada por fatores geopolíticos, aponta um relatório da Cogo Inteligência em Agronegócios, elaborado por Carlos Cogo.

Para Francisco Queiroz, especialista da Consultoria Agro do Itaú BBA, essa dependência deve continuar, principalmente por causa da queda de produtividade das fabricantes diante da escassez de insumos como o enxofre.

Ele afirma que há investimentos em plantas de nitrogênio no Brasil para ampliar a oferta no país, mas essa é uma solução sem efeito imediato.

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GWM Haval H6 ainda vale a compra? Veja o teste e por que ele perdeu a liderança para a BYD

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 26/07/2026 04:53

Carros GWM Haval H6 ainda vale a compra? Veja o teste e por que ele perdeu a liderança para a BYD O g1 avaliou o SUV e mostra onde ele continua à frente dos rivais, os pontos em que ficou para trás e o que explica a perda de espaço para a concorrente. Por André Fogaça, g1 — São Paulo

O GWM Haval H6 chegou ao Brasil em 2023 e, no ano seguinte, conquistou um lugar de destaque no segmento mais pujante do mercado automotivo: tornou-se o carro híbrido mais vendido do país, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE).

Mas o reinado durou pouco. Em 2025, a linha Song, da rival BYD, assumiu a liderança. Hoje, o Song Plus (R$ 249.990) e o Song Pro (a partir de R$ 189.990) vendem, juntos, cerca de 50% a mais que a linha H6. (veja o ranking abaixo)

O consultor automotivo Milad Kalume Neto disse ao g1 que a perda de espaço do modelo da GWM é resultado de uma combinação de fatores. O principal deles é o preço: o BYD Song Pro parte de R$ 189.990, R$ 9.910 a menos que a versão mais barata do H6 — e R$ 60 mil a menos que o H6 com mesmo sistema híbrido plug-in.

Mas, segundo o consultor, a montadora também demorou a renovar seu portfólio. "A BYD teve um portfólio mais amplo de produtos. A GWM ficou muito ‘presa’ apenas ao H6", afirma Kalume Neto.

Ele também destaca que o marketing mais agressivo da BYD, aliado a uma rede maior de concessionárias no Brasil, aproximou os consumidores da marca mais do que da GWM.

“A GWM inicialmente tinha um conjunto mecânico muito superior ao da BYD. Com a adoção do motor turbo, a BYD conseguiu se aproximar do desempenho do H6”, diz o consultor.

Entre pontos fortes e fracos, ainda vale a pena apostar no H6? O g1 avaliou o SUV e responde às seguintes perguntas:

O H6 ainda vende bem?No que ele é melhor que os concorrentes?No que ele fica para trás?Como é o desempenho do carro?Como ele se sai em espaço interno e conforto?Pra quem ele é? Compro ou vejo outro?

O fato de o Haval H6 ter perdido a liderança no ranking dos carros híbridos mais vendidos do Brasil não significa que o modelo esteja vendendo mal.

Entre janeiro e junho de 2026, o modelo teve 36% menos emplacamentos que a família BYD Song. Mesmo assim, a linha H6 registrou mais que o dobro dos emplacamentos do terceiro colocado, o Omoda 5:

BYD Song: 31.538 unidades emplacadas;Haval H6: 20.142 unidades emplacadas;Omoda 5: 9.184 unidades emplacadas;Toyota Corolla Cross: 8.721 unidades emplacadas;BYD King: 8.205 unidades emplacadas.

A série histórica mostra que o ritmo de crescimento do Haval H6 se manteve semelhante nos últimos três anos, considerando os seis primeiros meses de cada período.

Começando pelos predicados, o GWM Haval H6 chama a atenção nas ruas. O visual imponente, com carroceria robusta, capô elevado e grade frontal ampla, reforça essa impressão.

Os elementos da dianteira são bem marcados e a iluminação em LED que se estende pelas laterais, contribui para que o carro pareça maior do que realmente é.

O Haval H6 testado pelo g1, a PHEV19 (R$ 250.000), tem boa lista de equipamentos e oferece itens semelhantes aos dos principais concorrentes, como:

6 airbags;Teto solar panorâmico;Painel de instrumentos digital;Projeção de informações no para-brisa;Central multimídia grande, com 14,5 polegadas;Câmera em 360 graus;Sistema de direção semiautônoma com piloto automático adaptativo e sistema de permanência em faixa;Sensor de chuva;Porta-malas com abertura automática;Banco do motorista com ajustes elétricos.

Porém, o Haval H6 vai além e conta com reconhecimento facial do motorista. Com esse recurso, o carro salva automaticamente as preferências de cada usuário cadastrado, como as configurações dos assistentes de condução, da central multimídia e a posição do banco.

O Haval H6 também oferece um assistente que faz toda a manobra de baliza. O motorista precisa apenas passar pela vaga e escolher qual deseja utilizar.

Para fechar a lista de pontos positivos, o Haval H6 tem o maior porta-malas entre os principais concorrentes. São 560 litros de capacidade, ante 552 litros do BYD Song Plus, 520 litros do BYD Song Pro e 500 litros do Jaecoo 7.

O espaço do Haval H6 é suficiente para acomodar oito malas de bordo, aquelas que podem ser levadas na cabine do avião.

No geral, o Haval H6 tem poucos pontos negativos, e isso fica evidente pelo crescimento constante dos emplacamentos desde o lançamento no Brasil. O principal deles está relacionado à segurança e exige um período de adaptação maior do que o de outros carros.

Ele aparece na seta e, diferentemente dos concorrentes e da maioria dos carros vendidos hoje, o Haval H6 usa uma haste que precisa ser retornada manualmente depois de indicar uma curva.

Durante o teste, a reportagem sinalizou acidentalmente uma conversão para a direita ao tentar desligar a seta da esquerda — e vice-versa. Esse tipo de erro aconteceu mais de uma vez.

Outros focam em tecnologias com falhas. Um aparece no sistema de ar-condicionado. Ele resfria bem a cabine, mesmo em dias mais quentes, mas a temperatura escolhida pelo motorista raramente é respeitada.

No teste, a reportagem ajustou o ar-condicionado para 22 °C. Mesmo assim, o sistema manteve a cabine visivelmente mais fria o tempo todo. Foi necessário ligar e desligar o ar-condicionado manualmente com frequência, apesar de ele estar no modo automático.

Esse problema, assim como o da seta, já apareceu em outros carros da GWM. A reportagem observou o mesmo comportamento no Ora 03, no Tank 300 e até no Ora 5, durante um teste realizado em uma tarde quente na China.

O segundo envolve o sistema de direção semiautônoma. Ele funciona corretamente e detecta as faixas para manter o carro centralizado, mesmo quando elas estão menos visíveis. Mas a quantidade de alertas e algumas intervenções do sistema acabam mais atrapalhando do que ajudando.

Por padrão, o H6 emite um alerta sonoro sempre que o piloto automático é desativado, seja por ação do motorista ou do próprio veículo. Além disso, o sistema também avisa por voz que o recurso foi desligado. Ou seja, o motorista recebe os dois avisos ao mesmo tempo.

É possível desativar os avisos por voz, mas não o alerta sonoro. Também não é possível desativar a desaceleração do Haval H6 quando o sistema alerta o motorista para manter as mãos no volante.

Em outros veículos, chineses ou não, essa desaceleração só acontece depois que o sistema insiste por mais tempo para que o motorista mantenha as mãos no volante.

Com isso, em alguns trechos de estrada, mesmo com o Haval H6 ajustado para a velocidade permitida da via, ocorreram desacelerações involuntárias. Nessas situações, o carro reduzia a velocidade de forma inesperada, aumentando o risco de aproximação do veículo que vinha logo atrás.

A GWM foi rápida em adaptar seus carros ao gosto do brasileiro, que prefere veículos com suspensão mais firme. É o caso do Haval H6 avaliado, que já havia recebido um bom acerto anteriormente e agora mantém essa característica.

O comportamento do carro é bom tanto em altas quanto em baixas velocidades. Mesmo sendo um SUV alto, ele passa segurança nas curvas e mantém o conforto.

No motor, o conjunto híbrido plug-in reúne uma das principais qualidades dos carros elétricos: respostas rápidas nas arrancadas, em qualquer situação. Além disso, o motor turbo entrega força em rotações mais baixas, o que reduz o ruído dentro da cabine.

Mesmo em uma subida, com quatro adultos a bordo e o ar-condicionado ligado, o conjunto manteve o bom desempenho. A reportagem fez o teste tanto com a bateria cheia quanto após uma viagem longa, sem recarga para além do freio regenerativo.

O próprio sistema do H6 manteve uma carga mínima, em torno de 20%, para preservar o bom desempenho do motor elétrico nas arrancadas e ultrapassagens. Para isso, parte da potência do motor a combustão é usada para recarregar as baterias — o desvio de potência não chegou a ser perceptível.

Mesmo com parte da dianteira do H6 ocupada pelo motor a combustão e por componentes do sistema elétrico, o que toma espaço para quem senta nos bancos, nenhum dos ocupantes viajou com desconforto durante o teste.

Até mesmo uma pessoa com mais de 1,90 metro de altura, sentada no banco traseiro, ficou com mais de um palmo de espaço até o banco da frente. O espaço para a cabeça, mesmo com o teto solar panorâmico, também agradou.

No acabamento, o H6 segue o padrão das marcas chinesas nessa faixa de preço: a maior parte da cabine é revestida com materiais macios ao toque. A única exceção está em uma pequena área da porta traseira, na parte superior e próxima ao vidro, longe de onde os ocupantes costumam apoiar o braço.

O GWM Haval H6 agrada pelo conjunto da obra. A lista de equipamentos está alinhada à da concorrência, e o modelo se beneficia de estar no Brasil desde 2023, o que garante uma marca que já escutou reclamações e elogios dos clientes.

O utilitário é fabricado em Iracemápolis (SP) e pode ser abastecido com etanol por ser flex.Ele se destaca para quem prefere um carro de porte mais imponente, mas sem o visual de um jipão, como aposta o Jaecoo 7. Também oferece mais tecnologia que os concorrentes, principalmente pelo estacionamento autônomo, pela projeção de informações no para-brisa e pela central multimídia, que funciona sem travamentos.

Porém, o H6 cobra por tudo isso e está entre os mais caros da categoria. Cerca de R$ 60 mil abaixo dele estão o Jaecoo 7 (a partir de R$ 189.990) e o BYD Song Pro (entre R$ 189.990 e R$ 199.990).

Tanto o Jaecoo 7 quanto o BYD Song Pro oferecem menos recursos, mas custar 24% menos pode fazer diferença na hora da compra. O modelo da BYD fica atrás em potência, torque e capacidade do porta-malas, enquanto o Jaecoo 7 entrega uma ficha técnica mais próxima do Haval H6. (veja a ficha abaixo)

Considerando o perfil de quem deve comprar esse tipo de carro, tanto o Haval H6 quanto os híbridos BYD Song e Jaecoo 7 atendem bem a uma família com até dois filhos. Os três são espaçosos, têm porta-malas suficiente para acomodar algumas malas e oferecem conforto para viagens longas.

Eles também permitem economizar combustível mesmo quando a bateria está descarregada, já que o motor a combustão pode direcionar parte da potência para recarregá-la durante o uso.

Para quem prioriza tecnologia mais avançada e um porta-malas maior: o Haval H6 PHEV19 testado é o destaque.Para quem prefere um visual mais moderno e quer fazer viagens curtas usando apenas o modo elétrico, o BYD Song Plus atende melhor.

O Haval H6 PHEV19 não oferece essa possibilidade. Já o Haval H6 PHEV35 entrega esse desempenho, mas custa R$ 290 mil e entra como o modelo mais caro deste comparativo.

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RCPB Contabilidade Construtiva e Estratégica

Os milionários que querem pagar mais impostos no Reino Unido

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 26/07/2026 03:51

Economia MoedasDólar ComercialR$ 5,081-0,06%Dólar TurismoR$ 5,282-0,19%Euro ComercialR$ 5,777-0,13%Euro TurismoR$ 6,020-0,24%B3Ibovespa176.724 pts-0,46%MoedasDólar ComercialR$ 5,081-0,06%Dólar TurismoR$ 5,282-0,19%Euro ComercialR$ 5,777-0,13%Euro TurismoR$ 6,020-0,24%B3Ibovespa176.724 pts-0,46%MoedasDólar ComercialR$ 5,081-0,06%Dólar TurismoR$ 5,282-0,19%Euro ComercialR$ 5,777-0,13%Euro TurismoR$ 6,020-0,24%B3Ibovespa176.724 pts-0,46%Oferecido por

Um grupo de 120 milionários, incluindo o ex-jogador Gary Lineker, enviou carta ao primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, pedindo aumento de impostos para os mais ricos.

Organizada pelo grupo Patriotic Millionaires, a iniciativa apoia a criação de um imposto de 2% sobre fortunas acima de 10 milhões de libras no país.

Entre os signatários estão o diretor Richard Curtis, o empresário Ian Gregg e o músico Brian Eno, que defendem investimento no país por meio desses impostos.

A líder conservadora opositora, Kemi Badenoch, contestou a medida. Ela afirmou que Lineker pode fazer doações voluntárias ao Tesouro britânico por meio de cheque se desejar.

O premiê Andy Burnham não descartou a taxação anteriormente. Uma pesquisa citada no documento aponta que a maioria dos milionários apoia pagar alíquotas maiores.

Milionários, incluindo o ex-jogador de futebol Gary Lineker, escreveram ao novo primeiro-ministro do Reino Unido, Andy Burnham, pedindo um aumento de impostos para os mais ricos.

"Podemos pagar. Não estamos falando de impostos mais altos para aqueles que se levantam e vão trabalhar todos os dias para ganhar seu salário, mas sim para os mais ricos, cuja renda deriva da riqueza que possuem", escreveram.

Organizada pelo grupo Patriotic Millionaires (Milionários Patriotas, em tradução literal), uma organização de milionários que promove a reestruturação do sistema tributário, a carta afirma que o aumento levaria a uma sociedade mais igualitária e defende uma "descentralização da riqueza e do poder dos mais ricos".

No Reino Unido, as pessoas já podem doar dinheiro ou ações voluntariamente ao Tesouro por meio de um sistema de doações do governo.

A líder do Partido Conservador, de oposição, Kemi Badenoch, disse que Lineker "é muito bem-vindo para pagar mais impostos, ele pode emitir um cheque para o Tesouro, ninguém o está impedindo".

O grupo de milionários britânicos apoia um imposto de 2% sobre a riqueza acima de 10 milhões de libras (R$ 67,6 milhões).

Gary Lineker, que jogou pela Inglaterra nas Copa de 1986 e 1990, tem fortuna estimada em US$ 30 milhões, que vem principalmente da carreira como apresentador e da participação em anúncios comercias — Foto: Getty Images via BBC

"Os milionários são um grupo patriota", afirma a carta. "Amamos este país e queremos que ele prospere."

"Mas o sucesso exige investimento, e uma fonte primária de capital intocado para investimento está ao nosso alcance, em potencial não tributado."

Outros signatários da carta incluem Richard Curtis, diretor de cinema responsável pelos filmes Um Lugar Chamado Notting Hill e Simplesmente Amor, Ian Gregg, ex-diretor administrativo e filho do fundador da rede de cafés britânica Greggs, e o produtor musical Brian Eno.

O renovado apelo por impostos mais altos para os ricos segue uma campanha semelhante realizada em anos anteriores.

Burnham não descartou um imposto sobre a riqueza quando questionado sobre o assunto por Lineker alguns dias antes de se tornar primeiro-ministro.

O apelo mais recente do Patriotic Millionaires diz que há uma "necessidade de adotar um novo tipo de descentralização da riqueza e do poder, dos mais ricos para reinvestir em nosso maior patrimônio em todas as regiões".

A carta afirma ainda que uma pesquisa própria mostrou que a maioria dos milionários está disposta a pagar um imposto mais alto.

"Ainda existem algumas pessoas com pensamento econômico ultrapassado e outras desesperadas para se agarrar a cada centavo que possuem", disseram.

"Aqueles que não conseguem enxergar além dos seus próprios interesses não têm lugar na construção de uma Grã-Bretanha para o futuro."

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Marcas de luxo não poderão mais destruir produtos não vendidos na UE e ‘exclusividade’ fica ameaçada

Fonte: G1 Empreendedorismo | Publicado em: 26/07/2026 03:51

Empreendedorismo Marcas de luxo não poderão mais destruir produtos não vendidos na UE e 'exclusividade' fica ameaçada União Europeia proibiu grandes empresas de destruir roupas, calçados e acessórios novos não vendidos. Agora, o setor terá de encontrar formas de preservar a demanda sem recorrer ao descarte de mercadorias. Por Stéphane Geneste

A marca britânica Burberry causou escândalo ao admitir ter queimado mercadorias novas — Foto: AP – Alastair Grant

Durante décadas, parte da indústria do luxo administrou seus excedentes longe dos olhos dos consumidores. A destruição de produtos não vendidos ajudava a preservar a raridade que sustenta o prestígio e os preços das grandes marcas.

Com as novas regras da União Europeia, anunciadas nesta semana, esse modelo passa a ser questionado e obriga o setor a buscar formas de conciliar exclusividade, rentabilidade e responsabilidade ambiental.

Segundo a nova regulamentação, grandes empresas que atuam na União Europeia não poderão mais destruir roupas, calçados e acessórios não vendidos.

O texto é claro: as marcas terão de dar uma segunda destinação a esses produtos. Entre as alternativas estão a venda por meio de canais de liquidação de estoque, a doação para instituições, o reparo, o recondicionamento ou a reciclagem dos materiais. A destruição só será permitida em situações específicas, especialmente quando o produto apresentar riscos, estiver danificado ou for falsificado.

A medida responde a uma realidade preocupante. Segundo a Agência Europeia do Meio Ambiente, entre 4% e 9% dos produtos têxteis colocados no mercado europeu são destruídos antes mesmo de serem utilizados.

Isso representa, anualmente, entre 264 mil e quase 600 mil toneladas de roupas, calçados e acessórios novos. Para Bruxelas, esse desperdício já não é compatível com as metas climáticas do bloco nem com sua estratégia de desenvolvimento de uma economia circular.

A destruição de produtos de luxo não vendidos é uma prática conhecida há anos. Em 2018, a grife britânica Burberry causou controvérsia ao admitir que havia queimado mercadorias avaliadas em € 31 milhões (cerca de R$ 173 milhões) em um único ano para preservar sua imagem de exclusividade.

Em 2021, a marca americana Coach também foi alvo de críticas após a divulgação de vídeos que mostravam bolsas não vendidas sendo deliberadamente cortadas antes do descarte.

Diante da repercussão negativa, a empresa anunciou o fim da prática e passou a investir em programas de reparo e revenda.

Embora a nova regra europeia pareça simples no papel, sua aplicação é mais complexa para as empresas do setor de luxo.

Isso porque essas marcas não vendem apenas roupas, bolsas ou sapatos. Elas comercializam, sobretudo, uma ideia de exclusividade, cuja raridade é parte fundamental da construção de valor financeiro e simbólico de seus produtos.

Por muito tempo, a destruição de itens não vendidos foi uma forma de preservar essa escassez e evitar que os produtos chegassem ao mercado por meio de liquidações em larga escala. Para grandes maisons de moda e artigos de couro, descontos frequentes podem enfraquecer a imagem da marca e reduzir o valor percebido de suas coleções.

É justamente por isso que grupos como LVMH, Chanel e Prada recebem a regulamentação com cautela. A principal preocupação é a necessidade de direcionar um volume maior de produtos para mercados secundários, o que pode banalizar artigos tradicionalmente associados à exclusividade e comprometer sua percepção de valor.

Diante desse novo cenário, as marcas de luxo terão de rever suas estratégias de gestão de estoques.

Uma das alternativas é manter os produtos não vendidos armazenados por mais tempo. Essa solução, porém, envolve custos adicionais com logística, seguro, armazenamento e manuseio.

Outra possibilidade é ampliar os canais de revenda, mas sob controle rigoroso das próprias marcas, de forma a escoar os estoques sem prejudicar sua imagem. Nos últimos anos, diversas empresas do setor já passaram a investir em programas próprios de revenda de itens usados ou recondicionados.

Uma terceira estratégia, que vem ganhando força, é produzir menos e com maior precisão, ajustando os volumes de fabricação à demanda real do mercado.

Ainda assim, prever vendas na indústria da moda continua sendo um desafio. Uma coleção pode se transformar em um sucesso comercial ou ter desempenho abaixo do esperado. Além disso, tendências e preferências dos consumidores mudam com rapidez.

Para as empresas de luxo, o desafio agora é preservar a raridade de seus produtos sem recorrer à destruição de mercadorias não vendidas. Trata-se de uma mudança significativa para um setor que, durante décadas, preferiu fazer seus excedentes desaparecerem a correr o risco de vê-los perder valor.

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Por que cada vez mais jovens dizem não a cargos de liderança

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 25/07/2026 05:51

Trabalho e Carreira Por que cada vez mais jovens dizem não a cargos de liderança Pesquisas indicam que Geração Z e millennials priorizam equilíbrio, propósito e flexibilidade, tornando a liderança apenas uma entre várias possibilidades de sucesso profissional. Por Larissa Maia — São Paulo

Para jovens, crescer financeiramente e assumir um cargo de gestão deixaram de ser sinônimos — Foto: Christin Klose/dpa-tmn/picture alliance

Crescer na carreira, ganhar mais e conquistar bons benefícios é o sonho de praticamente todo trabalhador. Mas, para os mais jovens, esse caminho nem sempre passa por um cargo de liderança. É o que apontam pesquisas globais, como o levantamento da consultoria Deloitte, realizado em 2025.

Apenas 6% dos entrevistados da Geração Z (nascidos entre 1995 e 2010) e dos millennials, ou geração Y (nascidos entre 1978 e 1994), disseram que seu principal objetivo profissional era chegar a uma posição de chefia.

Por outro lado, o mesmo estudo revela uma preocupação crescente com as finanças. Entre os participantes, 48% da Geração Z e 46% dos millennials afirmaram não se sentir financeiramente seguros.

Em 2024, esses índices eram de 30% e 32%, respectivamente, o que representa uma piora expressiva em apenas um ano.

Nesse cenário, ganhar mais dinheiro e assumir um cargo de gestão deixaram de ser objetivos necessariamente interligados. Trata-se de uma tendência global que também já se reflete no Brasil.

A rejeição à liderança está longe de ser uma regra geral. Para Lina Nakata, professora e pesquisadora da FIA Business School e autora do estudo Lugares Incríveis para Trabalhar, é um mito dizer que as gerações mais novas não querem liderar.

No recorte do primeiro semestre deste ano da pesquisa que coordena, os jovens apresentam uma propensão 32% menor de desejar cargos de liderança em comparação à média dos profissionais. Entre os entrevistados de 18 a 22 anos, liderar é prioridade para 15%. Já entre aqueles de 33 a 39 anos — faixa etária que registra o maior interesse por cargos de gestão — o percentual sobe para 23%.

"À medida que avançamos na carreira dentro das empresas, essa expectativa de liderança aumenta", afirma. Segundo ela, no início da trajetória profissional, ocupar um cargo de gestão nem sempre está entre as principais ambições dos trabalhadores.

Para Nakata, os jovens não deixaram de querer liderar; eles apenas desejam fazê-lo sob determinadas condições. "Eles vão querer a liderança à medida que se identificam com a organização. Quando percebem que estão de acordo com aquilo que a empresa propõe e que o discurso institucional está alinhado às práticas da companhia", analisa.

A pesquisadora também lembra que rotular os mais jovens como "desinteressados" pela liderança está longe de ser uma novidade. A mesma crítica, afirma, foi direcionada aos millennials quando eles ingressaram no mercado de trabalho.

"Quando cada grupo jovem chega ao mercado de trabalho, ele vai se adaptando. Estar naquele ambiente muda percepções e avaliações, e as pessoas passam a enxergar outras possibilidades. No início da carreira, pode haver menos interesse pela liderança, mas isso se altera com o tempo. Quando a geração Y chegou ao mercado, falava-se exatamente a mesma coisa", diz.

Embora situação financeira seja uma preocupação dos jovens, pesquisadora aponta que há uma preferência maior por benefícios e qualidade de vida — Foto: Viorel Kurnosov/Zoonar/picture alliance

Atualmente, segundo a pesquisa, 15% dos jovens veem a liderança como um fator de realização profissional, o que, para a professora, relativiza a ideia de que existe uma rejeição generalizada aos cargos de chefia.

"Não quer dizer que nenhum jovem queira ser líder. Significa apenas que existe uma proporção menor de jovens que busca essa liderança."

O primeiro ponto a entender, segundo Nakata, é que a queda no interesse por cargos de gestão não reflete falta de ambição, mas uma mudança nos critérios de sucesso.

"Não diria que é falta de ambição. São expectativas e crenças diferentes sobre o que é sucesso na vida. Décadas atrás, havia um modelo mais padronizado de sucesso profissional, baseado em alcançar cargos mais altos e salários mais elevados. Hoje, vemos que a percepção de realização e do que é considerado satisfatório para a vida e para a trajetória profissional mudou", explica.

A professora afirma que os jovens tendem a questionar as premissas que o próprio mercado de trabalho estabelece como sinônimo de sucesso. Para ela, isso é positivo porque evita a naturalização de ideias como a de que "ser workaholic é legal" ou de que "viver estressado faz parte da rotina". Além disso, temas como saúde mental passaram a ser discutidos mais abertamente.

O social media Mateus Araújo, de 28 anos, faz parte desse grupo. Ele recusou uma proposta para coordenar sua equipe por considerar que o novo cargo exigia um perfil diferente do seu.

"Eu não imaginava que fosse ser cotado como o próximo nome da sucessão. Apesar de desempenhar um bom trabalho, acredito que os perfis sejam diferentes."

Segundo ele, o principal motivo para recusar a proposta foi ter discernimento de que as responsabilidades do cargo oferecido eram bastante distintas das que exercia até então. Além disso, a mudança significaria abrir mão de uma rotina que já considerava consolidada e sob controle.

Hoje, suas prioridades profissionais incluem estabilidade, qualidade de vida e flexibilidade para realizar trabalhos como freelancer "em uma rotina tranquila". Ainda assim, ele não descarta assumir uma posição de liderança no futuro.

Jovens hoje em dia tendem a avaliar mais os prós e contras de assumir um cargo mais alto do que gerações anteriores — Foto: Channel Partners/Zoonar/picture alliance

Segundo Nakata, essa mudança também está relacionada ao aumento da expectativa de vida. A pesquisa da Deloitte mostrou que cerca de 40% da Geração Z e dos millennials se preocupam com a possibilidade de não conseguir se aposentar com conforto financeiro.

Com as pessoas vivendo mais — e, consequentemente, trabalhando por mais tempo — a qualidade de vida passou a influenciar as decisões de carreira desde cedo.

"Hoje temos uma expectativa de vida muito mais alta. Isso faz com que saibamos que teremos de trabalhar por mais tempo, independentemente do motivo. E também percebemos que os jovens querem uma carreira mais equilibrada, não necessariamente centrada na busca por um cargo de liderança. É uma tendência global", afirma.

Mudança nas necessidades de competências no mercado de trabalho também impulsiona crescimento de carreira mais horizontalizado — Foto: Benis Arapovic/Zoonar/picture alliance

Para a professora, os jovens avaliam mais cuidadosamente os prós e contras de assumir posições de gestão do que as gerações anteriores.

"Eles estão analisando o que é mais vantajoso, o que traz maior satisfação e o que compensa mais. Pensam nas suas demandas e obrigações e, ao mesmo tempo, no que recebem em troca."

"Quando comparamos a remuneração da base com a da liderança, muitas vezes compensa menos ser líder. São mais responsabilidades, mais riscos, mais recursos e orçamentos para gerenciar. Isso faz com que o jovem prefira buscar equilíbrio, qualidade de vida e flexibilidade, elementos que costumam ser mais difíceis de conciliar com a liderança", afirma.

"Ao aceitar a proposta, eu teria de lidar com demandas mais imprevisíveis, uma rotina presencial mais intensa e mais interações com colaboradores e parceiros. E, provavelmente, por uma remuneração que eu não considerava suficiente. Minha paz e uma rotina mais previsível têm muito mais peso para mim", diz.

A professora acrescenta que as prioridades variam conforme o momento da carreira. Dependendo da fase, fatores como propósito e busca por novos desafios podem ser mais relevantes — e nem sempre estão associados a um cargo de liderança.

Os dados da Deloitte reforçam essa percepção: para 89% da Geração Z e 92% dos millennials, ter propósito é importante para a satisfação e o bem-estar no trabalho.

A modernização do mercado também contribui para essa mudança. Com novas carreiras e especializações surgindo constantemente, cresce o interesse por trajetórias horizontais, nas quais é possível evoluir profissionalmente sem necessariamente subir na hierarquia corporativa.

"A liderança acaba sendo uma escolha para quem busca essa ascensão, que normalmente está associada a salários maiores, benefícios, privilégios e acesso a decisões mais complexas."

Por outro lado, ela avalia que a mudança de expectativas obriga as empresas a repensarem seus planos de carreira e estratégias de retenção. Em conversas com profissionais de recursos humanos, diz ouvir com frequência que integrantes da Geração Z valorizam cada vez mais benefícios e qualidade de vida, e não apenas aumentos salariais.

Para que os jovens se interessem por cargos de gestão, conclui a pesquisadora, as empresas precisam demonstrar que a liderança realmente vale a pena.

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A invasão de vídeos feitos com IA para ‘hipnotizar’ crianças no YouTube: ‘Pode impactar pelo resto da vida’

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 25/07/2026 05:51

Tecnologia A invasão de vídeos feitos com IA para 'hipnotizar' crianças no YouTube: 'Pode impactar pelo resto da vida' Pesquisadores identificaram que vídeos de baixa qualidade são sugeridos pelo algoritmo da plataforma e que criadores não avisam sobre o uso de tecnologia. Por Luiz Fernando Toledo

Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação, aparecem em vídeos de IA no Youtube — Foto: Bloomberg via Getty Images

Um urso panda reencontra um antigo cuidador e reage com surpresa, quase como se fosse um ser humano. A imagem é extremamente realista.

Músicas infantis que não têm refrão claro, trazem letras incompreensíveis e misturam trechos em mais de um idioma.

Personagens que mudam de nome, de voz e até de aparência ao longo da história, sem qualquer explicação.

Estes são alguns dos vídeos aparentemente criados com inteligência artificial e sugeridos pelo algoritmo do YouTube, inclusive após buscas relacionadas ao universo infantil.

Em um teste da BBC News Brasil, bastaram cerca de 15 minutos navegando pelos vídeos curtos da plataforma para que clipes desse tipo aparecessem. A busca inicial havia sido por temas como os jogos Roblox, Minecraft e vídeos de animais.

Produzidos em escala e replicados por diferentes canais, muitos desses conteúdos acumulam dezenas ou centenas de milhares de visualizações.

Criadores chegam a recomendar o nicho infantil como uma oportunidade de negócio e afirmam ser possível obter renda com esses vídeos.

Já especialistas ouvidos pela BBC News Brasil alertam que esse material pode levar as crianças a confundir realidade e ficção e afetar de forma significativa e permanente sua capacidade de atenção e seu desenvolvimento cognitivo e social.

O que explica essa invasão de vídeos gerados por IA no YouTube, o maior serviço de streaming do mundo?

O YouTube, por sua vez, diz priorizar o combate a conteúdos de IA de baixa qualidade e adotar regras mais rígidas para vídeos destinados a crianças.

Pesquisadores identificaram músicas, conteúdo religioso e cópias de personagens com direitos autorais em vídeos gerados por IA no Youtube — Foto: Reprodução/André Mintz/Youtube

A reportagem tentou estimar a frequência com que vídeos feitos com IA aparecem para o usuário, com base no alerta visual exibido pelo YouTube para conteúdos deste tipo.

A maioria, porém, não apresentava qualquer aviso, mesmo quando havia fortes indícios do uso da tecnologia, como vozes que não correspondiam aos personagens, desenhos que mudavam de forma entre uma cena e outra e gestos ou movimentos incomuns.

Pesquisadores ouvidos pela BBC News Brasil afirmam que o YouTube não identifica automaticamente vídeos feitos com IA e que muitos criadores não informam quando recorrem à tecnologia.

Uma análise do jornal The New York Times feita manualmente e também com uma ferramenta de detecção ajuda a ilustrar a frequência com que esses vídeos aparecem.

Em uma sessão de 15 minutos realizada após a exibição de um vídeo do canal infantil CoComelon, mais de 40% dos vídeos assistidos pareciam conter imagens geradas por IA.

Mesmo com dificuldades na coleta de dados, um estudo conduzido por André Mintz, professor do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e pela estudante de graduação em Cinema de Animação e Artes Digitais Juno Bozzi buscou identificar a presença desse tipo de conteúdo em vídeos infantis em português e inglês no YouTube.

A pesquisa partiu de uma base com cerca de 17 mil vídeos encontrados por meio de buscas com palavras-chave relacionadas à inteligência artificial e conteúdo infantil.

Em seguida, os pesquisadores aplicaram novos filtros para identificar apenas vídeos efetivamente voltados às crianças.

Os vídeos infantis gerados por IA analisados apresentavam diferentes níveis de uso desta tecnologia. Alguns pareciam ter sido produzidos quase integralmente desta forma. Outros incorporavam apenas alguns elementos, como cenários das animações.

A maior parte dos conteúdos era musical, com imagens geradas por IA acompanhadas de canções infantis. O estudo também encontrou adaptações de histórias, vídeos educativos, como lições sobre o alfabeto, e conteúdos religiosos.

Uma categoria que chamou a atenção dos pesquisadores foi a dos vídeos de "transformação", nos quais personagens de desenhos animados são recriados por IA em versões com aparência de crianças. A pesquisa aponta que esses vídeos tendem a repetir imagens genéricas e estereotipadas.

"O que chama a atenção é um certo desprezo pelo espectador infantil, de colocar qualquer coisa e confiar que a criança vai aceitar", diz o professor André Mintz à BBC News Brasil.

Rachel Franz, diretora do programa Young Children Thrive Offline (Crianças pequenas se desenvolvem melhor longe das telas, em tradução livre) da organização americana Fairplay, explica que esse tipo de vídeo se enquadra no chamado "AI slop"

Essa expressão é usada para definir vídeos de baixa qualidade, produzidos em massa com o uso de softwares de inteligência artificial.

Segundo Franz, a preocupação é maior em relação aos efeitos disso nas crianças pequenas, em um período da vida em que o cérebro ainda passa por intenso desenvolvimento.

"O cérebro das crianças atinge cerca de 90% do tamanho adulto até os 5 anos, e o que elas encontram nesse período molda seu desenvolvimento e pode impactá-las pelo resto da vida", afirma Franz.

"Crianças pequenas não conseguem distinguir fantasia de realidade. Assistir a AI slop pode condicionar o cérebro delas a acreditar que algo é real quando não é."

Franz afirma que muitos desses vídeos são produzidos para capturar a atenção infantil, não para ensinar.

Segundo ela, a sucessão de imagens confusas também pode sobrecarregar a quantidade de informações que uma criança consegue processar de uma só vez.

"Quando o cérebro é sobrecarregado com informações, a criança não consegue aprender tão bem quanto ao vivenciar situações reais, no seu próprio ritmo e usando todos os sentidos."

Ela também relaciona o consumo prolongado desses vídeos ao tempo que deixa de ser dedicado a atividades como brincar, dormir e interagir com outras pessoas.

"Vídeos hipnotizantes de músicas infantis gerados por IA, por exemplo, podem moldar o cérebro das crianças no longo prazo, afetando sua capacidade de atenção, sua resiliência e sua habilidade de regular as emoções mais tarde na vida."

Especialistas sugerem que YouTube deixe de recomendar vídeos gerados por IA — Foto: AFP via Getty Images

Os possíveis efeitos do consumo deste tipo de vídeo gerado por IA já são percebidos em atendimentos, segundo Telma Pantano, fonoaudióloga e psicopedagoga do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq/HCFMUSP).

"Há crianças que estão vindo com muitos medos, com muita dificuldade de definir o que acontece e o que não acontece."

Pantano afirma que a maturação das áreas pré-frontais do cérebro, relacionadas à capacidade crítica, à autorregulação e ao automonitoramento, começa por volta dos 6 anos e se estende até a vida adulta.

Segundo ela, a distinção entre realidade e fantasia começa a se consolidar por volta dos 7 ou 8 anos, enquanto habilidades como tomada de decisão e resolução de problemas se desenvolvem mais tarde.

"Até os 10 anos, é uma idade de muito risco, porque a criança ainda não sabe separar a realidade da fantasia e não tem capacidade de tomada de decisão, organização e planejamento para resolver problemas."

Para a especialista, há ainda um custo no contato constante com imagens prontas, que exigem pouco da imaginação infantil.

"Sabe aquela sensação de quando a gente vai ver um filme depois de ler o livro? Normalmente não gostamos do filme porque ele vai contra a nossa imagem mental", diz.

"O que estamos fazendo com essa construção de vídeos? Estamos permitindo que crianças e adolescentes entrem em contato com a imagem sem antes fazer essa construção mental. As imagens vêm prontas, e a criatividade fica bastante restrita."

Pantano afirma que também não se pode esperar que as próprias crianças identifiquem e rejeitem vídeos de baixa qualidade.

Conteúdos com cores, movimentos e mudanças rápidas podem capturar a atenção mesmo quando não apresentam uma narrativa coerente ou informação confiável, diz.

"Mesmo conteúdos sem significado, sem base científica ou sem conhecimento vão atrair a criança da mesma forma. E, quanto menor a criança, mais atrativo aquilo fica."

André Mintz avalia que esse tipo de vídeo se aproveita da dificuldade de muitas famílias em controlar o consumo de conteúdo infantil online.

"Geralmente, quando você vê crianças que assistem muito conteúdo online, é essa situação do pai ou da mãe sem tempo para ficar com a criança, precisando entretê-la enquanto cuida da casa, trabalha ou faz outra coisa."

Para ele, o problema não está apenas na existência dos vídeos, mas na forma como esse tipo de conteúdo se encaixa no modelo das plataformas.

"Se tem gente assistindo, para o YouTube está bom. Vai ser recomendado, vai aparecer", diz Mintz.

Rachel Franz concorda que o impacto sobre as crianças é agravado pelo próprio modo de funcionamento das plataformas.

"Elas são projetadas para fisgar as crianças e mantê-las engajadas pelo maior tempo possível. Elas usam táticas deliberadas, como reprodução automática e recomendações algorítmicas, para alimentar as crianças com um vídeo atrás do outro", afirma.

"Quando acrescentamos AI slop, que hipnotiza ainda mais as crianças, essa se torna uma batalha perdida. Isso não apenas impacta o desenvolvimento infantil, como torna impossível exercer o papel de pai ou mãe quando a própria tela luta contra você."

O YouTube afirma que, embora seja permitido conteúdo gerado por IA, a plataforma tem padrões mais rígidos para o conteúdo voltado para espectadores mais jovens.

"Combater o conteúdo de baixa qualidade gerado por IA é uma prioridade máxima para nós, e isso inclui esforços contínuos para remover conteúdo de IA marcado como 'feito para crianças' quando ele não atende aos nossos princípios de qualidade", diz a plataforma em nota à BBC News Brasil.

A empresa afirma que canais que usam IA continuam qualificados para monetização, ou seja, para exibir propaganda e serem pagos por isso, "desde que o produto final seja uma criação original que adicione uma perspectiva autêntica, siga nossas diretrizes de comunidade e de monetização, e divulgue adequadamente quando o conteúdo for alterado ou sintético".

Em uma entrevista ao canal Creator Inside, em julho, o vice-presidente de confiança e segurança do YouTube, Matt Halprin, disse que são considerados problemáticos vídeos em que o conteúdo seja genéricos ou repetitivo, que busquem manipular as emoções dos espectadores ou criem peronsagems com IA para abordar temas considerados mais sensíveis, como finanças, questões legais ou saúde.

Para João Victor Archegas, coordenador de direito e tecnologia do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio (ITS Rio), é positivo que o YouTube sinalize ao público o que caracteriza como um conteúdo que não seja autêntico, e que isso possa impedir sua monetização.

Isso permite que os criadores de conteúdo compreendam melhor os limites estabelecidos pela plataforma.

Para uma empresa que opera uma das maiores máquinas publicitárias do mundo, ressalta Archegas, é importante dar sinais claros a parceiros e anunciantes de que há uma preocupação com o uso dessa tecnologia, e que há alguma forma de controle pela própria plataforma.

Mas Archegas avalia que há uma contradição: o YouTube incentiva ativamente a adoção de ferramentas de IA para a criação de vídeos, enquanto tenta frear o "AI slop" (conteúdo de baixa qualidade) que essas mesmas tecnologias permitem escalar.

Isso tem, na prática, um efeito limitante sobre a capacidade do YouTube de conter a disseminação destes vídeos.

"A plataforma segue tendo o desafio imenso de identificar conteúdos gerados por IA e atuar quando eles são identificados", diz Archegas.

"Essas novas categorias podem ajudar o moderador a entender o que a plataforma considera prioritário, mas não dizem o que, de fato, o YouTube classifica como conteúdo gerado por IA ou quais são os parâmetros técnicos usados nessa moderação."

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Geely EX2 é bom de dirigir e barato de manter, mas precisa corrigir 7 deslizes; VÍDEO

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 25/07/2026 04:53

Carros Geely EX2 é bom de dirigir e barato de manter, mas precisa corrigir 7 deslizes; VÍDEO Hatch chinês tem boa lista de equipamentos, manutenção barata e será montado no Paraná, na fábrica da Renault. O g1 aponta o que precisa mudar no multimídia, ergonomia e mais pontos. Por Carlos Cereijo, g1 — São Paulo

A chinesa Geely e a francesa Renault são parceiras comerciais e já confirmaram que produzirão modelos no Brasil na mesma linha de montagem, em São José dos Pinhais (PR). Um deles é o Geely EX2, vendido por R$ 123.800 na versão Pro e por R$ 136.800 na versão Max.

Mesmo importado da China, o hatch já registra bons números de vendas e é o terceiro carro elétrico mais vendido do país — atrás apenas dos BYD Dolphin Mini e Dolphin. E esse desempenho pode melhorar ainda mais quando o modelo começar a ser produzido por aqui.

A fabricação nacional é uma ótima oportunidade para a Geely corrigir sete deslizes do modelo. O g1 testou o EX2 e mostra os pontos que precisam melhorar, além dos acertos que já ajudaram o compacto a conquistar o consumidor brasileiro.

Um dos pontos em que a Geely vai bem é o plano de manutenção. Normalmente, as revisões são feitas a cada 10 mil km, mas, no EX2, elas são realizadas a cada 20 mil km.

E os valores são mais baixos do que os de carros com bem menos tecnologia. São menos de R$ 5 mil gastos até a 7ª revisão, realizada aos 140 mil km.

O tempo de garantia também tranquiliza o consumidor. São seis anos para o carro e oito anos para a bateria.

O EX2 tem um interior que passa a sensação de carro moderno, mas também comete algumas derrapadas. Já está claro que o consumidor brasileiro gosta de telas, e as marcas chinesas entenderam que esse é um caminho sem volta para o interior dos carros.

O conjunto no Geely segue a receita já conhecida, com painel de instrumentos digital e central multimídia. Porém, o cluster atrás do volante é pequeno e simplório.

A grafia e os elementos exibidos não facilitam a visualização. A dica para a Geely é aumentar a tela ou trabalhar melhor a parte gráfica, para que as informações fiquem mais rápidas e fáceis de ler.

A central multimídia tem uma tela grande, de 14,6 polegadas. Mas a lógica de navegação não faz jus ao tamanho. Em alguns casos, é preciso executar dois ou três comandos para acessar uma função que poderia estar disponível de forma mais simples.

Ícones maiores, um menu mais intuitivo, atalhos mais bem definidos e a divisão de tela entre aplicativos deixariam a experiência melhor e reduziriam a necessidade de o motorista desviar a atenção da direção para encontrar um comando específico.

Essa é uma questão de software em que a montadora poderia investir mais. Quem sabe até pedir ajuda ao time da Renault, que resolveu isso melhor no SUV Boreal, por exemplo.

Falar de um carro "nacional" nos anos 1990 e no início dos anos 2000 costumava ser sinônimo de um modelo "abrasileirado": plásticos de qualidade inferior e simplificações adotadas por várias marcas ao adaptar veículos europeus para o mercado brasileiro.

Em comparação com o BYD Dolphin, por exemplo, o rival oferece acabamento de melhor qualidade. Há espaço para a Geely evoluir nesse aspecto — se der para manter o preço, claro.

Aproveitando uma possível atualização do acabamento, vale também dar atenção ao apoio lombar dos bancos dianteiros.

O EX2 é agradável de dirigir e tem bom equilíbrio dinâmico, mas os bancos poderiam oferecer mais sustentação para o corpo. A espuma é satisfatória, porém falta apoio lombar.

Para completar, a silhueta de prédios aplicada aos painéis de porta e ao painel pode ser dispensada. O detalhe passa uma impressão infantil e não reforça a sensação de tecnologia.

A lista de equipamentos, principalmente da versão Max, é bem extensa. O principal diferencial nessa faixa de preço, de quase R$ 137 mil, é o pacote de assistências à condução (ADAS).

O EX2 oferece controle de cruzeiro adaptativo, sistema de frenagem autônoma de emergência e outros recursos que fazem diferença no uso diário.

Vale destacar também a versão Pro, que custa R$ 126 mil e já vem bem equipada. Dentro dessa faixa de preço, o EX2 oferece um bom pacote de equipamentos.

Ainda assim, há algumas escolhas da Geely que poderiam ser revistas na futura versão produzida no Brasil.

O ar-condicionado, por exemplo, tenta transmitir uma aparência mais sofisticada ao exibir comandos e animações na tela da central multimídia, mas trata-se apenas de uma interface gráfica para um sistema de ar-condicionado convencional, sem funcionamento automático.

Outro ponto pior é a conectividade. Apesar de contar com carregador de celular por indução, o Android Auto e o Apple CarPlay ainda exigem conexão via cabo. A marca poderia aproveitar a produção nacional, no Paraná, para passar a oferecer os dois sistemas sem fio.

Entre os equipamentos de segurança, o EX2 traz de série o alerta sonoro emitido em baixas velocidades, recurso comum em carros elétricos e híbridos para alertar pedestres sobre a aproximação do veículo.

Porém, por causa da calibração desse som e do isolamento acústico mais simples, o ruído acaba invadindo a cabine.

Em deslocamentos curtos, isso não chega a incomodar. Mas, em congestionamentos longos, quando o carro permanece vários minutos em baixa velocidade, o som se torna cansativo.

A sensação é semelhante à de uma orquestra afinando os violinos antes de uma apresentação. Por enquanto, a solução é aumentar o volume da música.

O conjunto mecânico também merece elogios. Pelo preço, pela capacidade da bateria e pela potência de 116 cv, o EX2 entrega um conjunto equilibrado.

Um dos destaques é a tração traseira, que proporciona um comportamento dinâmico diferente do encontrado na maioria dos concorrentes.

A diferença é sutil, mas quem gosta de dirigir percebe que direção e suspensão foram bem acertadas. O EX2 não tem proposta esportiva, mas oferece uma condução agradável e até divertida.

A conclusão é que o Geely EX2 é um bom produto para o mercado brasileiro. O modelo chega competitivo em preço e precisa de apenas alguns ajustes para evoluir ainda mais quando começar a ser produzido no Brasil.

No design, o carro também está alinhado ao gosto do consumidor. Tem visual moderno, iluminação em LED que transmite personalidade e características que fogem da aparência tradicional dos hatches vendidos no país.

Some a isso um bom porta-malas de 375 litros, um compartimento de carga dianteiro de 70 litros e um custo de aquisição e manutenção que certamente fará muitos consumidores pensarem duas vezes antes de escolher um hatch convencional nos próximos anos.

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RCPB Contabilidade Construtiva e Estratégica

Da ostentação ao endividamento: a nova conversa sobre dinheiro entre jovens nas redes

Fonte: G1 Economia | Publicado em: 25/07/2026 04:53

Economia MoedasDólar ComercialR$ 5,081-0,06%Dólar TurismoR$ 5,282-0,19%Euro ComercialR$ 5,777-0,13%Euro TurismoR$ 6,020-0,24%B3Ibovespa174.042 pts-1,52%MoedasDólar ComercialR$ 5,081-0,06%Dólar TurismoR$ 5,282-0,19%Euro ComercialR$ 5,777-0,13%Euro TurismoR$ 6,020-0,24%B3Ibovespa174.042 pts-1,52%MoedasDólar ComercialR$ 5,081-0,06%Dólar TurismoR$ 5,282-0,19%Euro ComercialR$ 5,777-0,13%Euro TurismoR$ 6,020-0,24%B3Ibovespa174.042 pts-1,52%Oferecido por

Redes como TikTok e Instagram vêm sendo usadas por jovens para expor estratégias de economia, relatos de dívidas e o esforço para conquistar objetivos como a casa própria

O fenômeno não é exclusivo do Brasil: em vários países, movimentos semelhantes ganham força, como a trend "debt payoff journey", que significa em português "jornada de quitação de dívidas".

Esse compartilhamento de vulnerabilidades econômicas e metas financeiras ganhou até um nome no meio acadêmico: "loud budgeting", ou "orçamento em voz alta" em português.

A tendência incentiva as pessoas a declararem abertamente seus limites de gastos e suas prioridades financeiras seja nas redes sociais ou fora delas.

O contraponto é a exposição excessiva, que pode incluir a divulgação de dados privados sensíveis e sujeitar o criador de conteúdo ao julgamento público — incluindo o chamado "cancelamento" nas redes sociais.

Aos 23 anos, a empreendedora Camila Cordeiro acumulava uma dívida de mais de R$ 100 mil depois de um negócio que não deu certo. Em vez de manter o problema em segredo, ela decidiu documentar nas redes sociais o processo de reorganizar as finanças e voltar a ter o nome limpo.

"Eu estou um pouco receosa de fazer esse vídeo e começar a postar a minha jornada para pagar essas dívidas porque sei que tem família e amigos que vão ver, gente que me conhece, mas é sobre isso. Eu comprei uma franquia, mas eu quebrei", explica ela em um vídeo publicado no Tiktok que soma mais de 1,5 milhão de visualizações.

O relato de Cordeiro é parte de um movimento mais amplo: depois de anos associadas à ostentação financeira, redes como TikTok e Instagram vêm sendo usadas por jovens para expor o oposto — estratégias de economia, relatos de dívidas e o esforço para conquistar objetivos como a casa própria.

O fenômeno não é exclusivo do Brasil: em vários países, movimentos semelhantes ganham força, como a trend "debt payoff journey", que significa em português "jornada de quitação de dívidas".

Esse compartilhamento de vulnerabilidades econômicas e metas financeiras ganhou até um nome no meio acadêmico: "loud budgeting", ou "orçamento em voz alta" em português.

A tendência incentiva as pessoas a declararem abertamente seus limites de gastos e suas prioridades financeiras seja nas redes sociais ou fora delas.

David Spohn, professor da Lynn University, nos Estados Unidos, e pesquisador do tema, observa que os jovens de hoje rejeitam o consumo de luxo como aspiração e comunicam abertamente suas restrições em relação ao dinheiro para evitar pressões sociais.

Em vez de sentir vergonha por não poder gastar ou ir a algum lugar, ele diz que essa geração trata a limitação financeira como algo natural: algo que simplesmente não está (ou não cabe) no orçamento.

"Muita gente vê as redes sociais como o centro da questão, mas, nesse contexto específico, elas não são o foco. O que importa é que a Geração Z as usa para obter informação e tomar decisões mais acertadas", afirma Spohn.

Pesquisas que ele participou apontam que metade da educação financeira dos entrevistados vinha da escola, e a outra metade, da família.

Quando a família não aborda o tema, Spohn diz que a Geração Z busca preencher essa lacuna na internet, onde assuntos como salários, dívidas, desigualdade de gênero e investimentos são discutidos abertamente.

Para o professor, isso também reflete o cenário econômico herdado pelos mais jovens: "O mundo está muito caro. Para sobreviver e ganhar dinheiro, eles passaram a se envolver nessa conversa entre si e com qualquer pessoa disposta a conversar, de outras gerações inclusive, para aprender a navegar por essas águas turbulentas".

É o que também aponta a planejadora financeira Priscilla Mundim. Para ela, no país, a migração da ostentação digital para conteúdos mais autênticos é motivada, sobretudo, pelo cenário de endividamento das famílias brasileiras.

"A superexposição, o luxo, carro, casas, viagens, não têm combinado com o padrão de vida do brasileiro", afirma Mundim.

"Estamos no momento de maior endividamento de toda a história, e isso é um fator real dentro das famílias. Mesmo quem está em dia com todos os contratos tem um comprometimento elevado do orçamento mensal. Por isso, aquele consumismo hoje gera menos identificação entre os jovens", completa.

"Quando encontramos vozes reais e genuínas, a conexão e a empatia com quem está do outro lado com certeza vai ser maior e isso acaba aproximando as pessoas", acrescenta a planejadora.

Enquanto os jovens usam as redes para desabafar sobre a própria situação financeira, pesquisas apontam o peso da crise do custo de vida sobre as gerações mais novas — e a percepção de que dificilmente atingirão o mesmo patamar social dos pais, seja na compra da casa própria, do carro ou em outras conquistas.

Um levantamento da consultoria Deloitte com mais de 22 mil pessoas da geração Z e da geração millennial em 44 países mostrou que o custo de vida é a principal preocupação de ambos os grupos, à frente de temas como criminalidade, desemprego e geopolítica.

Segundo a mesma pesquisa, 51% da geração Z e 40% dos millennials afirmam não ter condições financeiras de comprar um imóvel.

Um estudo de 2026 do Núcleo de Estudos Raciais do Insper, conduzido pelos pesquisadores Daniel Duque, Michael França e Fillipi Nascimento, comparou as condições econômicas e sociais da geração X (nascidos entre 1965 e 1980) e da geração millennial (1981–1996) aos 30 anos de idade.

O levantamento mostrou que a geração millennial chega à vida adulta com renda maior e mais acesso à educação do que a geração anterior teve na mesma idade, mas esse avanço não se traduziu em melhoria real nas condições de vida.

Os autores chamam esse fenômeno de ausência de "mobilidade intergeracional plena", indicador que mede a probabilidade de os filhos superarem a renda real dos pais.

Para a parcela dos jovens que escolhem compartilhar os relatos, mostrar vulnerabilidades financeiras virou uma forma de trocar o sentimento de culpa pelo endividamento por um caminho para a resolução e até para encontrar jovens em situações similares.

A ideia é mostrar "a vida real", que inclui contratempos financeiros, e não mais a ideia de ostentação ou vida inatingível.

"Cheguei a dever para agiota, bancos, tudo que vocês imaginarem. Juntando tudo, dava mais de R$ 150 mil. Hoje eu não devo isso tudo, mas ainda devo uma quantidade grande", diz outro vídeo do Tiktok de uma usuária chamada Jardielly.

Dados do Mapa da Inadimplência da Serasa referentes a maio deste ano mostram que dos 83,5 milhões de brasileiros inadimplentes, 11% tinham entre 18 e 25 anos.

Embora o percentual de jovens inadimplentes nessa faixa etária tenha oscilado pouco, o valor médio das dívidas desse grupo aumentou de R$ 2 mil em maio de 2020 para R$ 3,6 mil em maio de 2026, segundo a Serasa.

Uma pesquisa do Santander no Reino Unido com 2 mil jovens de 18 a 21 anos mostrou que quase um terço deles (31%) recorre a influenciadores digitais em busca de orientação financeira.

Embora a conversa sobre dinheiro tenha migrado das famílias para as plataformas digitais — e se ampliado para temas como endividamento e planejamento orçamentário —, especialistas alertam para os riscos de se informar sobre o tema nas redes sociais.

"Uma das coisas que me preocupa como educador é: você está seguindo o conselho correto? Algumas dessas postagens ou personalidades das redes sociais não precisam necessariamente seguir restrições porque não estão atuando como conselheiros pessoais de ninguém. Portanto, há muita informação disponível que pode ser correta para algumas pessoas, mas não para todas", diz o professor.

Para a planejadora financeira, esse tipo de exposição tem dois efeitos. O primeiro é positivo: ajuda o público a perceber que dificuldades financeiras são um problema real. O segundo é o risco de normalizar o endividamento ou usá-lo como justificativa para negligenciar as próprias finanças.

"Já que todo mundo está nessa situação, eu também posso estar e não vou me preocupar, porque o problema é do mundo. Aí a pessoa passa a jogar a responsabilidade para todos os lados e não assume a própria responsabilidade", explica.

Mundim também chama atenção ainda para o risco de comparações com realidades incompatíveis, já que cada pessoa tem uma situação financeira distinta, e qualquer plano para sair das dívidas ou atingir metas precisa ser individualizado.

Por outro lado, ela destaca um benefício comportamental: assumir um compromisso público — não necessariamente na internet, mas também com um amigo, um planejador financeiro ou um terapeuta — tende a aumentar o engajamento da pessoa com seu próprio plano financeiro, segundo estudos das finanças comportamentais.

O contraponto é a exposição excessiva, que pode incluir a divulgação de dados privados sensíveis e sujeitar o criador de conteúdo ao julgamento público — incluindo o chamado "cancelamento" nas redes sociais.

*Nomes de usuários nas redes sociais mencionados nesta reportagem correspondem a perfis públicos que compartilharam seus relatos online.

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